segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

knife




someone asked me this weekend
if i'm not too cold
maybe i'm just too old
for this kind of question


asked if my heart wasn't sold
for some new emotional style
with no stroke or heartbeat
which nowadays it's also fashion


once you don't make all those fake acts
people see you as a knife
bleeding their lies
passionately composed generations ago
by/for their beloved families

then you cannot feel anything
because you're not a human anymore
maybe if you're too strong, you're a god
but in actual circunstances
a demon is the easy meaning

kids, you got to remember:
people love pacts
and their gods ain't the same of yours



segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Hércules de vidro



na dúvida
se considere a pior pessoa na face da Terra
só que sendo a melhor
essa é a melhor forma de sair ileso:
sem machucar ninguém

somos Hércules de vidro
dispostos contra os outros por natureza
trabalhos homéricos e cruéis
tamanho a sua dureza

somos sutura, curativo, antissépticos contaminados
sempre tentando fazer desta cabeça um templo
pois a mais pura forma de paz é o exemplo

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

entre o raso e o profundo




se engana quem acha que existe gente rasa
que suas experiências são superiores
acredite, há uma grande carga nos puxando
para o senso comum e os comportamentos casuais

hoje eu não enxergo isso mais com uma total aversão
tento perceber que existem outros de mim
numa diferente versão
numa diferente visão
(e na maior parte das vezes são esses que busco
pois são esses que me fazem crescer)

as pessoas ditas profundas estão afundando
pois a descoberta da verdade também lhes é pesada
e acabam criando novamente outro senso comum
que é esse do aluguel dos sonhos alheios em busca dos seus

entre o raso e o profundo
em cada um de nós
existe um mundo

pra qualquer um há um manual de instrução,
uma proposta didática pra ir removendo
a densidade dos sentimentos enterrados
por meio das piadas largadas aos ouvidos

granadas arremessadas em múltiplos sentidos
perfurando cuidadosamente as nuvens que cercam
os nossos vulcões adormecidos

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

hacker





a cultura hacker
o instinto da invasão, do conhecimento
da corrosão do instinto
habita em mim e eu acho que não escolhi a ciência
foi a ciência que me escolheu

essa parada de procurar,
de buscar o lado mais alternativo
a fim de perceber o cerne
me fez parte desde o berço
e desde então, vi as consequências
e tento revelar apenas um terço de mim

para os escolhidos, parte dos dois terços restantes
pra alguém talvez todo
não antes sem algum engodo
que para mim não é engodo algum
e é aí que habita o mistério
onde dois vira um

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

flecha



vou a um encontro que parece impossível
(eu não tenho medo de entrar no labirinto)
te escuto lá, há esse mudo grito
como se uma flecha atravessasse o seu peito
e eu não sei se sou a mão que a retira;

só que em mim há essa bússola gigante
construída ao longo de anos
que não me deixa me perder
e que eu quero te ensinar a fazer;
então já não me importa a duração de uma viagem
ou o quanto essa é distante...

há também um para-quedas pros locais inacessíveis
mas eu entendo todo medo de altura:
você fala em loucura, mas me soa indecisão
como sou super-cortês, eu estendo a minha mão
pra mostrar que não há caminho
e que não é preciso
apontá-lo com uma flecha cravada no coração

o meu único medo é ser incompreendido
e é por esse motivo que sempre te convido
a usarmos esse arco juntos
nessa caverna, sem restrição

sábado, 16 de novembro de 2013

madrugada


eu não consigo dormir
a madrugada roubou meu sono
e o levou com a minha carta de alforria
sequestrou minha vida e fez feitiçaria
e assim me atou diante dos meus pensamentos

me pego seguindo os passos de todos os caras que se recusavam
a aceitar o fato de que escreviam de verdade
e logravam pouco a pouco
na intimidade do silêncio assistido pela lâmpada fluorescente

a madrugada é vazia
como eu, dizem que sou
a madrugada é fria
como eu, dizem que sou
e é nesse momento que me sinto quente
quando me encontro com ela, imponente,
longe de toda a depressão vulcânica
que existe na gente que dorme ao poente

infelizmente
a madrugada, como eu (dizem que sou)
passou

internet




como era bonita a vida sem internet
hoje tentar viver sem
me dói como a escarificação de Leituga
mas eu quero algo belo em mim, mesmo assim

sei lá, é como uma sede inesgotável diante de uma privada
e retirando da publicação o direito do crivo
perdemos a privacidade, e a nossa vida agora é substantivo

nós conseguimos evoluir
nós ultrapassamos a vida privada
a vida agora é uma vida bosta

a vida da tv agora está em outra tela
onde você pode expor toda essa tristeza de novela
toda essa carência que fede na sua cabeça
e que às vezes te faz ter desinteria

e aí nós cagamos opiniões, cagamos fotos
cagamos indiretas
nós cagamos likes
cagamos comentários em notícias da Folha
cagamos e não limpamos

porque diferentemente do papel higiênico que tem destino certo
a bosta que você escreve faz da internet um grande ventilador
e uma vez que você atira voa bosta para todos os lados
e passa bosta e mais bosta, e ninguém ouve o motor

domingo, 10 de novembro de 2013

wormholes





"e aí o que manda?"
me perguntaram há alguns dias
do meu pensamento;
se anda tormento
ou mesmo se anda
ou se nada

eu respondi: labirinto
mas confesso que minto
Stephen Hawking poderia talvez explicar
tanto cyberspaço num mesmo lugar

wormholes, uma ideia vai de um lugar para outro num minuto
horas penso nas letras, noutras penso nas contas, e misturo
tudo que escuto num acorde diminuto

lendo na madrugada
ouço menos as pessoas
e mais os pássaros da manhã
eles fazem pensar se já é cedo ou tarde;
mas também vão me ensinando esse jeito
de chegar na manha sem fazer alarde

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

íngrime



a passos lentos
tanto ando que não vejo
o caminho que há atrás
é ladeira íngrime, que me força as pernas;
e eu percorro admirando a paisagem, porque
ali na esquina ou no litoral, ambos são viagem

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

a fundo






água mole em pedro duro
tanto bato até que furo
e água nova bate em mim
e passa reta sem me ver

e tem sido sempre assim
desde que não vejo você;
porque há tempos há um buraco
que eu não sei por quê está aqui

um buraco que precisa existir
mas que existe em carne viva
que é áspero por dentro
e faz da água abrasiva

eu não sei se ainda é a hora
de chegar ao fundo do rio
e deixar o limo crescer

ou se simplesmente sigo no rio
e afundo
no mundo

terça-feira, 1 de outubro de 2013

sensibilidade





talvez eu seja o último romântico
relapso, destes que chegam na última hora
levantando com uma mão a flor
(a outra está suja de terra)
que me lembrei de arrancar no caminho pra te ver

dos que fazem a poesia e o jantar
dos que não mentem
dos que falam da fome
e de tudo que sentem

faço mestrado em romantismo
e entendo a sua artificialidade;
pois natural é ser gentil.
o romantismo é pontual e não um estado
manifesta-se no novo e no senil
e quanto mais passa-se o tempo
se naturalmente teatralizado
fica ainda mais febril

mel demais dá cárie na boca
vão-se os dentes se perdendo ao longo da idade
precisamos perceber esta delicadeza assim como percebemos as nuvens
para que se torne uma simples manifestação de nossa sensibilidade

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

farol: parte 2

continuando a série sadomasoquista
que entende que qualquer divagação a respeito
do amor é inútil
e que este é um prazer experimentado pelos artistas
há muitos séculos antecedentes
quem usam a caneta pra brincar com fogo
e se queimam rindo, talvez beijando

hoje o amor não é mais preocupação
e desde que seu corpo esteja intacto
é literalmente uma saudável diversão

poderíamos aqui também
dizer o porquê da recriminação...
mas, sinceramente:
ainda ligamos pra eles?

metade da diversão na viagem pra mim sempre foi o caminho
a estrada é o ninho no qual eu nasci, e acho que aquário
sempre me entendeu muito bem;

uma doce antítese esta dos peixes que vivem livres no fluido preso
que sonham em ser pássaro, mas não se abalam na impossibilidade;
pois a sua qualidade, e a sua nadadeira: esta o faz voar
sob algum ponto de vista, que
dá razão suficiente
para que ele exista

às vezes fecho a cara e faço bico
viro a cara, finjo que não existo
mas é só encenação pra que esse coração
em mim se mantenha vivo diante desse oceano todo
em que esse mesmo peixe
nada

-
para que eu mude sem me tornar outro pedro ivo

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

carrapato

na aula de hoje iremos falar sobre o bom-senso
esse carrapato que existe nas pessoas discernidas
que pica e faz sangrar quando você nao o usa
dizem que é um carrapato sistemático, nocivo, a depender

pois então, iniciei um papo com este
que dizia ser estrangeiro, de um país não muito distante
onde todos tinham carrapato
e todos conviviam muito bem, pois ele não precisava trabalhar

papo vai, papo vem, depois de algumas picadas
ele me sugere a criação de um glossário
ou um curso de operador de pessoas
onde as pessoas trabalhassem o bom-senso
ou um atlas do bom-senso, um zoológico do bom-senso
bom-senso's nus a olhos nus, com a bunda de fora

"não vai dar certo essa ideia
eles não vão cooperar
brasil brasil, é uma pangéia
provinciana... deixe estar"

as pessoas estão presas ao que dizem para elas
a sociedade virou uma artéria, você vai fazê-las sofrer
num mundo onde todos se toleram, muitos se recusam a aprender
cortar esse comportamento vai lhes gerar hemorragia

eu sugiro trocarmos
o bom-senso pelo teatro
o afago pelo rancor
chorarmos com o drama
e ignorarmos o terror

e quando tudo virar um tragédia
vamos simplesmente virar a cara na comédia
passa-se a página e morrem-se os santos
os culpados se escondem pelos cantos

fruta


maturar ideias
fazer do sentimento fruta
descascar a dor e sentir o sumo
da vida como quem acabou de retirar do pé

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

farol: parte 1

olho no espelho a face amassada
um vidro reflete o perfil cortante
em ângulos percebo se tudo está no lugar
ajusto a simetria e ando

o cheiro do café me chama
pra uma conversa franca
por mim mesmo
e eu mecanicamente ritualizo a manhã
fazendo da cabeça autor
e o corpo direção;
o olho ator
e a plateia mão

hoje saí de casa olhando
pra um janela que lembrava aquela
pensando num papo que deixo pra depois
sobre essa complicação:
de olhar pra cima, ver o sol
mas pensar na noite e me ver farol
fiquemos nessa

domingo, 15 de setembro de 2013

balança

o joio do trigo
a nata do leite

saber separar o que já existe
por simbiose mas que você sabe que talvez
sempre esteve ali artificialmente
o que seria o estado natural?

vida, grande balança aérea
onde me peso mas levito
mudar de ares, abrir as asas, crescer
por que evito?

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

cortina

estou morando numa sala vazia
percorrida pelo sol das 5, que adentra laranja
na minha vastidão cinza
e deixo a cortina entre aberta
na dúvida de fechar ou não
assim, pela incerteza na decoração
vou trazendo poesia ao ambiente
(e o feng shui que se foda)

ali no canto também reside
um sofá bege que combina
com o café com leite que o acompanha
bebo sentado observando as cores
e pensando na vida
nos sorrisos e nas dores

entreaberto ou não
antes que o sol se recolha
não me recolherei
diante de alguma escolha

vou levando assim de sina
pois hoje às 5 da tarde, eu percebi
que na vida
eu sou essa cortina

sábado, 7 de setembro de 2013

discreto

a forma como as pessoas
são afetadas pelo afeto
me faz pensar se somos
adultos ou fetos nessa epopéia do sentimento
se somos reféns do casamento
como os filhos de Moisés

eu gostaria de pensar
que estamos a caminho da perfeição
mas a cada dia que passa, com tantas flores
distribuídas ao léu
eu sinto que as pessoas estão cada vez mais sozinhas
e que suas preces são gritos de socorro

mingau se traça pelas bordas
eu prefiro quem não liga pro calor do centro do prato:
gato preto largado no lixo, 
que anda na noite caçando a lua...
(essa mesma que na multidão é clara
mas diante de nós dois é nua)

antes que falemos sobre os sentidos largados,
antes que falemos da colcha amassada no motel;

o amor que eu vivo, carmim
antes de qualquer demonstração pública de afeto
é vivido intensamente,
com cuidado, esmero... e discreto

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

placebo


agora eu percebo
o porquê do placebo
essa maçã do amor
colhida na árvore dos desejos

eva, cleopatra, marilyn
o que vocês fizeram para merecer isso?

é como se fosse necessária a dor
como instrumento de percepção
e assim toda felicidade efêmera
fazendo da língua navalha

e percebemos o quanto é volúvel
que estamos numa peça de shakespeare
que morremos de amor porque gostamos
talvez porque a morte seja dona de tudo

terça-feira, 3 de setembro de 2013

bob é bobo


Caetano dizia
'eu não quero ser Bob Dylan'
quando se referia ao mito
mas Caê, você é livro aberto
carta marcada, surpresa em cada ato
eu diria que tu já nascestes luz

Bob é bobo
como todo artista americano
e embora você os enalteça
eu não te trocaria por nenhum deles,
Caetano

Agora eu percebo que cada lugar tem sua cor
e que não é pecado fazer rock nesse estado
ou fazer samba pra Obama ou pra Rainha:

nós só precisamos fazer jus

estudar como quem vê química e vira a cara
colocar a fronte a tapa, mostrar de fato quem é
de lá pra cá, numa arte impessoal
mas de cá pra lá, dilacerar cada segredo
perceber que meu melhor amigo
vê a minha arte com gosto e medo

escrever, cantar, estudar, trabalhar,
dormir tarde e acordar cedo

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

dê amor



ninguém merece ninguém
todos merecem todos
vamos viver um engodo
e nos organizar

em família-sociedade
vamos ser pais e mães de nós
nos entrelaçar em nós
e repartir esse bolo

vamos amar sem culpa
sem marido ou mulher
sem paixão ou estupro
vamos viver sem medo

sem anel, sem padre
sem véu, sem cerimônias

vamos viver sem insônia

vamos compartilhar objetivos
falar do amor
ser menos altivos
e objetivar sinceridade

vamos tratar o sexo
como bem de saúde pública
colocar na sexta-básica, sei lá
não esqueçamos o romantismo

vamos amar por estrofes
vamos ser poesia
parar de disputar frases
e declamar alegria

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

o elogio e o tomate

porque o título é instigante
mas é o conteúdo que fascina
como se olhássemos o mar
e preferíssemos a piscina
como se o conhecimento
fosse distante

como se ninguém fosse errante
como se ninguém comesse ninguém
como se ninguém fosse alguém especial
com imperfeições e especialidades

hoje, em especial vos digo
antes o elogio ao tomate
antes a dúvida ao combate, claro
mas acima de tudo
antes o argumento à ofensa
(apenas se o afeto da ofensa
for maior que o afeto do argumento)
e sinceramente, acho que nesse momento...

domingo, 25 de agosto de 2013

a cor que existe em nós

já se faz necessário há muito tempo
uma impessoalidade na arte
para que os frutos de meu gênio
não me acarretem esse adjetivo
para que me minhas valsas
não se tornem bossas
para que meu rock
não se torne valsa

queria vida balsa
e não tocar no chão
viver no mar sentindo o vento
vendo para onde vou sem saber
voando com as gaivotas

afinal é disso que se trata
morar num lugar cinza, não é?
a cor que existe em nós

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

gatuna

the cup is raised
the toasted is made yet again

parece que fui flechado
agora realmente depois de tanto tempo
seu arco esvoaçante com cabelo repicado
como se tivesse perdido um amante
e esse seu amante fosse bandido

é o momento que percebo que tu aprendeu roubar
e faz isso com a maestria gatunística digna de um indigno
faz da sua ausência meu conforto
e de seu conforto uma ciência
me faz seu consolo e sua bengala
me faz seu amuleto e sua mandala
e me invoca quando quer

hoje eu admito
sou uma receita de bolo
farinha, açúcar, engodo
um pouco de fermento
ausência e gentileza
sorriso e paixão na dose certa
                               [ pra não azedar

garota das nuvens
você me laça com o ar
que sai entre tuas pernas
no teu andar descontraído
e o meu amor por você
é uma algema de merengue
guardada a sete chaves
para que comamos juntos

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

miss

percebi de longe o olho ateu
o olho teu
e saquei que era analogia o amendoim
que hora ou outra caía no seu
cachecol burguês

como é que as coisas causam surpresa
quando percebes
que tudo estava escrito
e que você só segue o caminho
sem pestanejar
sem Carpinejar
mas na terra dele

ou na sua terra

cadê você,
Miss Lexotan?

terça-feira, 13 de agosto de 2013

liverpoolina

por poucos instantes
achei que tu fosse a nova gabriela
mas o sotaque liverpool me fez perceber
que talvez fosses parisiense

como se teu nome fosse um acorde dos beatles
e eu john lennon te levasse pra jantar
sílabas soltas num café gelado
o nosso silêncio como prato principal

palavras e palavras soltas são anáguas
no teu corpo literal,
que fala por gestos
a alma em nudez

sábado, 10 de agosto de 2013

ouroboros

tava ali tipo Tom Zé
observando a figura do ouroboros
que se consome
imaginando
as causas da fome
de ser e existir

imaginando
o porquê da dor e do marasmo
qual a necessidade da ironia
e qual a ofensa no sarcasmo
observando ali também
o motivo para tanta
conversa que não vale um vintém

observando o que mais acontece
que é toda essa quermerse de quem
fala mais sobre algo ou alguém
e chegando a conclusão nenhuma

até porque eu acho que fora a aceitação
do próximo, do mundo, dos anjos;
a única conclusão da qual temos certeza é o fim
e fora essa certeza nenhuma outra é real
me permito viver esse caça-palavras
sendo eu a cruzada, e vocês os templários

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

U.F.O.



estou à espera deste U.F.O.
uma abdução que roube o meu coração
cada vez mais fincado nesse baixo mundo...
um pedido estúpido para uma estúpida utopia

a forma como você empunha a cerveja
me diz que talvez não tão forte assim você seja
e possa desmoronar quando eu disser
que às vezes sinto saudade
(mas só às vezes)
medo de que nesse momento
você quebre a garrafa na mesa
ou simplesmente imagine isso
como uma manifestação qualquer de tristeza

e eu acabo mudo e sorrindo menos
deixando de brigar contigo nessa luta de cócegas
risos manifestados pelos corpos quentes
juntos e instáveis como dois barris de pólvora

que torcem para estarem sempre seguros
mas que só precisam de uma chance
para acender o pavil, este
que em mim já foi arrancado há tempos
mas existe simbolicamente
e é acendido a cada momento que passo contigo

terça-feira, 6 de agosto de 2013

todo homem precisa de uma bota

acho que todo homem
precisa de uma bota de responsa
aquela bota sem frufru
uma bota que diga bom dia
sem mostrar os dentes
mas fazendo o rastro deles na cara

uma bota Clint Eastwood

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

balde

sempre tive essa teoria
de que cada ano antes do 25
valia como 25 antes dos 100
porque só isso explica
essa mudança de cores
essa mudança de acordes

como se eu pintasse um quadro
e o destino jogasse um balde
de tinta
só que aí o desenho fica melhor
e eu tento superá-lo, sobrescrevendo-o

como se eu fizesse cafuné
no moleque de anteontem
desse uns bons conselhos óbvios
baseados no que sou

e fizesse estimativas de como eu seria
se assim não fosse
ou como eu serei
se assim o for

aprendi a ser cruel comigo mesmo
como um sensei, um sargento, um pai
me forçando a seguir sempre avante
e me eximindo do cargo de mirante;

dando a mesma cara ao tapa e ao beijo

sábado, 3 de agosto de 2013

charminho

esse seu charminho, não pense
que é segredo
sei que me negas a todo instante
por medo

de minhas verdades
sejam vontades
que minhas ações
não sejam ciência
como se eu esperasse a dormência
para atacar

mas a verdade mesmo
nisso tudo
é que eu sou o grande medroso
pareço grande e vistoso
mas à menor das dúvidas
sou cergo, surdo e mudoe

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

linguagens


aprender linguagens é do que
se trata a vida
não ser poliglota, polifônico,
poliamor... nem só isso

é tentar ouvir e compreender
dialetos distintos
distintamente

é tentar falar indistintamente
num só dialeto

é ouvir mais e só falar a
língua do necessário
fazer rir com o que é sério
ser ao mesmo tempo
o mais agradável dos
insuportáveis mistérios

quarta-feira, 31 de julho de 2013

hostilidade

você pode não perceber
o quanto eu acho charmoso
essa sua hostilidade
pois isso me demonstra sinceridade
que além de raro, requer todo um mérito
em se manusear

e é por meio disso
que eu percebo os seus medos
e o que seria pra repelir
te expele, e eu me pergunto
se sua fraqueza 
não é sua pele

parece criança,
que reclama da dor
negando o chá;
vou te dar essa colher
torcendo pra que você não use como faca

domingo, 28 de julho de 2013

mito da concha

ser reflexo, faz lembrar
que espelho é vidro
e ao quebrar morre cortante
como um kamikaze narcisista

por estarmos todos concha
uns pontudos, outros não
tem o ouriço que anda,
e o ouriço do mar

molusco, invertebrado
anda pelas próprias pernas
e carrega a casa nas costas
é um bicho de exemplo
pra quem sonha liberdade

traz por fora dor e sofrimento
em suas lanças afiadas
mas ao mínimo calor se abrem
revelando a fragilidade ora escondida
e agora escancarada

molho

cruel amor emprego
que me dá sossego mas obrigação
dislexia doce, como torta de limão
eu me dôo e me vendo, por um abraço
e um aconchego

te chamo pr'um café
ou te pago uma cerveja
jogamos palavras fora
criando uma teia pra que deitemos
e não saiamos mais

pra que eu fosse tua presa;
mas você presa estaria

porque minha chave é teu olho
que me abre por inteiro
e mesmo vestindo o codinome 'sésamo'
acho-te em meio a tantos outros nesse molho

sexta-feira, 26 de julho de 2013

despir

a arte me consome, me denigre
me transforma em pó e espuma
é esquizofrenia, mediunidade
anjos e demônios, bondade e maldade

tudo isso fluindo, eu um filtro
ou motor
ou vela
ou amor

captando os ventos e moldando
tendo cada vez mais a mão mais leve
fazendo samba, fazendo rock
fazendo um riff que vicia como crack
fazendo letras que incitam ataques
getting anything that might makes it heavy

e eu fico viajando, imaginando o que pode ser
desenhando num caderno de desenho
o esboço de album
e apresentando minha arte
como um sedutor barato
que te faz rir às oito, e te despe às onze

segunda chance

o que tu ouviu sobre mim:
se era maldoso é mentira
mas se você não concorda
é verdade

eu sou o pior tipo de pessoa
pra alguém que conhece alguém
esperando concordar

porque eu vivo da segunda chance
a primeira é descartável
apenas um teste pra fazer
com que a nossa alma amanse

domingo, 21 de julho de 2013

sorriso

vamos parar de tentar nos convencer
todos nós que nos relacionamos
temos as nuvens de testemunhas
ainda que elas não falem
e tomem formas disformes
vamos nos chamar de céu
e vestir esse uniforme

-
nuvens que refletem seu sorriso
o seu dente e a sua alma
que te fazem mais gostosa
do que qualquer silicone

ah, sorriso peça
em que és protagonista
na fala, na mordida
ou outro jeito espontâneo
tatua minha pele com teu sorriso
pr'eu carregar tua alma
no meu tecido subcutâneo

quarta-feira, 17 de julho de 2013

formigas

sobre a originalidade
na composição artística
às vezes sou crítico cínico
nesse jogo de vaidade

não comece a produzir arte
ou terá um olho clínico

pois o que nos diferencia
das formigas
é que nos sobra a intenção
e nelas sobra o instinto
como a uva que nasce do pé
e é engarrafada em vinho tinto

(nas suas mais variadas qualidades)