sexta-feira, 30 de agosto de 2013

dê amor



ninguém merece ninguém
todos merecem todos
vamos viver um engodo
e nos organizar

em família-sociedade
vamos ser pais e mães de nós
nos entrelaçar em nós
e repartir esse bolo

vamos amar sem culpa
sem marido ou mulher
sem paixão ou estupro
vamos viver sem medo

sem anel, sem padre
sem véu, sem cerimônias

vamos viver sem insônia

vamos compartilhar objetivos
falar do amor
ser menos altivos
e objetivar sinceridade

vamos tratar o sexo
como bem de saúde pública
colocar na sexta-básica, sei lá
não esqueçamos o romantismo

vamos amar por estrofes
vamos ser poesia
parar de disputar frases
e declamar alegria

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

o elogio e o tomate

porque o título é instigante
mas é o conteúdo que fascina
como se olhássemos o mar
e preferíssemos a piscina
como se o conhecimento
fosse distante

como se ninguém fosse errante
como se ninguém comesse ninguém
como se ninguém fosse alguém especial
com imperfeições e especialidades

hoje, em especial vos digo
antes o elogio ao tomate
antes a dúvida ao combate, claro
mas acima de tudo
antes o argumento à ofensa
(apenas se o afeto da ofensa
for maior que o afeto do argumento)
e sinceramente, acho que nesse momento...

domingo, 25 de agosto de 2013

a cor que existe em nós

já se faz necessário há muito tempo
uma impessoalidade na arte
para que os frutos de meu gênio
não me acarretem esse adjetivo
para que me minhas valsas
não se tornem bossas
para que meu rock
não se torne valsa

queria vida balsa
e não tocar no chão
viver no mar sentindo o vento
vendo para onde vou sem saber
voando com as gaivotas

afinal é disso que se trata
morar num lugar cinza, não é?
a cor que existe em nós

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

gatuna

the cup is raised
the toasted is made yet again

parece que fui flechado
agora realmente depois de tanto tempo
seu arco esvoaçante com cabelo repicado
como se tivesse perdido um amante
e esse seu amante fosse bandido

é o momento que percebo que tu aprendeu roubar
e faz isso com a maestria gatunística digna de um indigno
faz da sua ausência meu conforto
e de seu conforto uma ciência
me faz seu consolo e sua bengala
me faz seu amuleto e sua mandala
e me invoca quando quer

hoje eu admito
sou uma receita de bolo
farinha, açúcar, engodo
um pouco de fermento
ausência e gentileza
sorriso e paixão na dose certa
                               [ pra não azedar

garota das nuvens
você me laça com o ar
que sai entre tuas pernas
no teu andar descontraído
e o meu amor por você
é uma algema de merengue
guardada a sete chaves
para que comamos juntos

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

miss

percebi de longe o olho ateu
o olho teu
e saquei que era analogia o amendoim
que hora ou outra caía no seu
cachecol burguês

como é que as coisas causam surpresa
quando percebes
que tudo estava escrito
e que você só segue o caminho
sem pestanejar
sem Carpinejar
mas na terra dele

ou na sua terra

cadê você,
Miss Lexotan?

terça-feira, 13 de agosto de 2013

liverpoolina

por poucos instantes
achei que tu fosse a nova gabriela
mas o sotaque liverpool me fez perceber
que talvez fosses parisiense

como se teu nome fosse um acorde dos beatles
e eu john lennon te levasse pra jantar
sílabas soltas num café gelado
o nosso silêncio como prato principal

palavras e palavras soltas são anáguas
no teu corpo literal,
que fala por gestos
a alma em nudez

sábado, 10 de agosto de 2013

ouroboros

tava ali tipo Tom Zé
observando a figura do ouroboros
que se consome
imaginando
as causas da fome
de ser e existir

imaginando
o porquê da dor e do marasmo
qual a necessidade da ironia
e qual a ofensa no sarcasmo
observando ali também
o motivo para tanta
conversa que não vale um vintém

observando o que mais acontece
que é toda essa quermerse de quem
fala mais sobre algo ou alguém
e chegando a conclusão nenhuma

até porque eu acho que fora a aceitação
do próximo, do mundo, dos anjos;
a única conclusão da qual temos certeza é o fim
e fora essa certeza nenhuma outra é real
me permito viver esse caça-palavras
sendo eu a cruzada, e vocês os templários

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

U.F.O.



estou à espera deste U.F.O.
uma abdução que roube o meu coração
cada vez mais fincado nesse baixo mundo...
um pedido estúpido para uma estúpida utopia

a forma como você empunha a cerveja
me diz que talvez não tão forte assim você seja
e possa desmoronar quando eu disser
que às vezes sinto saudade
(mas só às vezes)
medo de que nesse momento
você quebre a garrafa na mesa
ou simplesmente imagine isso
como uma manifestação qualquer de tristeza

e eu acabo mudo e sorrindo menos
deixando de brigar contigo nessa luta de cócegas
risos manifestados pelos corpos quentes
juntos e instáveis como dois barris de pólvora

que torcem para estarem sempre seguros
mas que só precisam de uma chance
para acender o pavil, este
que em mim já foi arrancado há tempos
mas existe simbolicamente
e é acendido a cada momento que passo contigo

terça-feira, 6 de agosto de 2013

todo homem precisa de uma bota

acho que todo homem
precisa de uma bota de responsa
aquela bota sem frufru
uma bota que diga bom dia
sem mostrar os dentes
mas fazendo o rastro deles na cara

uma bota Clint Eastwood

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

balde

sempre tive essa teoria
de que cada ano antes do 25
valia como 25 antes dos 100
porque só isso explica
essa mudança de cores
essa mudança de acordes

como se eu pintasse um quadro
e o destino jogasse um balde
de tinta
só que aí o desenho fica melhor
e eu tento superá-lo, sobrescrevendo-o

como se eu fizesse cafuné
no moleque de anteontem
desse uns bons conselhos óbvios
baseados no que sou

e fizesse estimativas de como eu seria
se assim não fosse
ou como eu serei
se assim o for

aprendi a ser cruel comigo mesmo
como um sensei, um sargento, um pai
me forçando a seguir sempre avante
e me eximindo do cargo de mirante;

dando a mesma cara ao tapa e ao beijo

sábado, 3 de agosto de 2013

charminho

esse seu charminho, não pense
que é segredo
sei que me negas a todo instante
por medo

de minhas verdades
sejam vontades
que minhas ações
não sejam ciência
como se eu esperasse a dormência
para atacar

mas a verdade mesmo
nisso tudo
é que eu sou o grande medroso
pareço grande e vistoso
mas à menor das dúvidas
sou cergo, surdo e mudoe

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

linguagens


aprender linguagens é do que
se trata a vida
não ser poliglota, polifônico,
poliamor... nem só isso

é tentar ouvir e compreender
dialetos distintos
distintamente

é tentar falar indistintamente
num só dialeto

é ouvir mais e só falar a
língua do necessário
fazer rir com o que é sério
ser ao mesmo tempo
o mais agradável dos
insuportáveis mistérios