quinta-feira, 26 de setembro de 2013

farol: parte 2

continuando a série sadomasoquista
que entende que qualquer divagação a respeito
do amor é inútil
e que este é um prazer experimentado pelos artistas
há muitos séculos antecedentes
quem usam a caneta pra brincar com fogo
e se queimam rindo, talvez beijando

hoje o amor não é mais preocupação
e desde que seu corpo esteja intacto
é literalmente uma saudável diversão

poderíamos aqui também
dizer o porquê da recriminação...
mas, sinceramente:
ainda ligamos pra eles?

metade da diversão na viagem pra mim sempre foi o caminho
a estrada é o ninho no qual eu nasci, e acho que aquário
sempre me entendeu muito bem;

uma doce antítese esta dos peixes que vivem livres no fluido preso
que sonham em ser pássaro, mas não se abalam na impossibilidade;
pois a sua qualidade, e a sua nadadeira: esta o faz voar
sob algum ponto de vista, que
dá razão suficiente
para que ele exista

às vezes fecho a cara e faço bico
viro a cara, finjo que não existo
mas é só encenação pra que esse coração
em mim se mantenha vivo diante desse oceano todo
em que esse mesmo peixe
nada

-
para que eu mude sem me tornar outro pedro ivo

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

carrapato

na aula de hoje iremos falar sobre o bom-senso
esse carrapato que existe nas pessoas discernidas
que pica e faz sangrar quando você nao o usa
dizem que é um carrapato sistemático, nocivo, a depender

pois então, iniciei um papo com este
que dizia ser estrangeiro, de um país não muito distante
onde todos tinham carrapato
e todos conviviam muito bem, pois ele não precisava trabalhar

papo vai, papo vem, depois de algumas picadas
ele me sugere a criação de um glossário
ou um curso de operador de pessoas
onde as pessoas trabalhassem o bom-senso
ou um atlas do bom-senso, um zoológico do bom-senso
bom-senso's nus a olhos nus, com a bunda de fora

"não vai dar certo essa ideia
eles não vão cooperar
brasil brasil, é uma pangéia
provinciana... deixe estar"

as pessoas estão presas ao que dizem para elas
a sociedade virou uma artéria, você vai fazê-las sofrer
num mundo onde todos se toleram, muitos se recusam a aprender
cortar esse comportamento vai lhes gerar hemorragia

eu sugiro trocarmos
o bom-senso pelo teatro
o afago pelo rancor
chorarmos com o drama
e ignorarmos o terror

e quando tudo virar um tragédia
vamos simplesmente virar a cara na comédia
passa-se a página e morrem-se os santos
os culpados se escondem pelos cantos

fruta


maturar ideias
fazer do sentimento fruta
descascar a dor e sentir o sumo
da vida como quem acabou de retirar do pé

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

farol: parte 1

olho no espelho a face amassada
um vidro reflete o perfil cortante
em ângulos percebo se tudo está no lugar
ajusto a simetria e ando

o cheiro do café me chama
pra uma conversa franca
por mim mesmo
e eu mecanicamente ritualizo a manhã
fazendo da cabeça autor
e o corpo direção;
o olho ator
e a plateia mão

hoje saí de casa olhando
pra um janela que lembrava aquela
pensando num papo que deixo pra depois
sobre essa complicação:
de olhar pra cima, ver o sol
mas pensar na noite e me ver farol
fiquemos nessa

domingo, 15 de setembro de 2013

balança

o joio do trigo
a nata do leite

saber separar o que já existe
por simbiose mas que você sabe que talvez
sempre esteve ali artificialmente
o que seria o estado natural?

vida, grande balança aérea
onde me peso mas levito
mudar de ares, abrir as asas, crescer
por que evito?

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

cortina

estou morando numa sala vazia
percorrida pelo sol das 5, que adentra laranja
na minha vastidão cinza
e deixo a cortina entre aberta
na dúvida de fechar ou não
assim, pela incerteza na decoração
vou trazendo poesia ao ambiente
(e o feng shui que se foda)

ali no canto também reside
um sofá bege que combina
com o café com leite que o acompanha
bebo sentado observando as cores
e pensando na vida
nos sorrisos e nas dores

entreaberto ou não
antes que o sol se recolha
não me recolherei
diante de alguma escolha

vou levando assim de sina
pois hoje às 5 da tarde, eu percebi
que na vida
eu sou essa cortina

sábado, 7 de setembro de 2013

discreto

a forma como as pessoas
são afetadas pelo afeto
me faz pensar se somos
adultos ou fetos nessa epopéia do sentimento
se somos reféns do casamento
como os filhos de Moisés

eu gostaria de pensar
que estamos a caminho da perfeição
mas a cada dia que passa, com tantas flores
distribuídas ao léu
eu sinto que as pessoas estão cada vez mais sozinhas
e que suas preces são gritos de socorro

mingau se traça pelas bordas
eu prefiro quem não liga pro calor do centro do prato:
gato preto largado no lixo, 
que anda na noite caçando a lua...
(essa mesma que na multidão é clara
mas diante de nós dois é nua)

antes que falemos sobre os sentidos largados,
antes que falemos da colcha amassada no motel;

o amor que eu vivo, carmim
antes de qualquer demonstração pública de afeto
é vivido intensamente,
com cuidado, esmero... e discreto

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

placebo


agora eu percebo
o porquê do placebo
essa maçã do amor
colhida na árvore dos desejos

eva, cleopatra, marilyn
o que vocês fizeram para merecer isso?

é como se fosse necessária a dor
como instrumento de percepção
e assim toda felicidade efêmera
fazendo da língua navalha

e percebemos o quanto é volúvel
que estamos numa peça de shakespeare
que morremos de amor porque gostamos
talvez porque a morte seja dona de tudo

terça-feira, 3 de setembro de 2013

bob é bobo


Caetano dizia
'eu não quero ser Bob Dylan'
quando se referia ao mito
mas Caê, você é livro aberto
carta marcada, surpresa em cada ato
eu diria que tu já nascestes luz

Bob é bobo
como todo artista americano
e embora você os enalteça
eu não te trocaria por nenhum deles,
Caetano

Agora eu percebo que cada lugar tem sua cor
e que não é pecado fazer rock nesse estado
ou fazer samba pra Obama ou pra Rainha:

nós só precisamos fazer jus

estudar como quem vê química e vira a cara
colocar a fronte a tapa, mostrar de fato quem é
de lá pra cá, numa arte impessoal
mas de cá pra lá, dilacerar cada segredo
perceber que meu melhor amigo
vê a minha arte com gosto e medo

escrever, cantar, estudar, trabalhar,
dormir tarde e acordar cedo