segunda-feira, 18 de novembro de 2013

flecha



vou a um encontro que parece impossível
(eu não tenho medo de entrar no labirinto)
te escuto lá, há esse mudo grito
como se uma flecha atravessasse o seu peito
e eu não sei se sou a mão que a retira;

só que em mim há essa bússola gigante
construída ao longo de anos
que não me deixa me perder
e que eu quero te ensinar a fazer;
então já não me importa a duração de uma viagem
ou o quanto essa é distante...

há também um para-quedas pros locais inacessíveis
mas eu entendo todo medo de altura:
você fala em loucura, mas me soa indecisão
como sou super-cortês, eu estendo a minha mão
pra mostrar que não há caminho
e que não é preciso
apontá-lo com uma flecha cravada no coração

o meu único medo é ser incompreendido
e é por esse motivo que sempre te convido
a usarmos esse arco juntos
nessa caverna, sem restrição

sábado, 16 de novembro de 2013

madrugada


eu não consigo dormir
a madrugada roubou meu sono
e o levou com a minha carta de alforria
sequestrou minha vida e fez feitiçaria
e assim me atou diante dos meus pensamentos

me pego seguindo os passos de todos os caras que se recusavam
a aceitar o fato de que escreviam de verdade
e logravam pouco a pouco
na intimidade do silêncio assistido pela lâmpada fluorescente

a madrugada é vazia
como eu, dizem que sou
a madrugada é fria
como eu, dizem que sou
e é nesse momento que me sinto quente
quando me encontro com ela, imponente,
longe de toda a depressão vulcânica
que existe na gente que dorme ao poente

infelizmente
a madrugada, como eu (dizem que sou)
passou

internet




como era bonita a vida sem internet
hoje tentar viver sem
me dói como a escarificação de Leituga
mas eu quero algo belo em mim, mesmo assim

sei lá, é como uma sede inesgotável diante de uma privada
e retirando da publicação o direito do crivo
perdemos a privacidade, e a nossa vida agora é substantivo

nós conseguimos evoluir
nós ultrapassamos a vida privada
a vida agora é uma vida bosta

a vida da tv agora está em outra tela
onde você pode expor toda essa tristeza de novela
toda essa carência que fede na sua cabeça
e que às vezes te faz ter desinteria

e aí nós cagamos opiniões, cagamos fotos
cagamos indiretas
nós cagamos likes
cagamos comentários em notícias da Folha
cagamos e não limpamos

porque diferentemente do papel higiênico que tem destino certo
a bosta que você escreve faz da internet um grande ventilador
e uma vez que você atira voa bosta para todos os lados
e passa bosta e mais bosta, e ninguém ouve o motor

domingo, 10 de novembro de 2013

wormholes





"e aí o que manda?"
me perguntaram há alguns dias
do meu pensamento;
se anda tormento
ou mesmo se anda
ou se nada

eu respondi: labirinto
mas confesso que minto
Stephen Hawking poderia talvez explicar
tanto cyberspaço num mesmo lugar

wormholes, uma ideia vai de um lugar para outro num minuto
horas penso nas letras, noutras penso nas contas, e misturo
tudo que escuto num acorde diminuto

lendo na madrugada
ouço menos as pessoas
e mais os pássaros da manhã
eles fazem pensar se já é cedo ou tarde;
mas também vão me ensinando esse jeito
de chegar na manha sem fazer alarde

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

íngrime



a passos lentos
tanto ando que não vejo
o caminho que há atrás
é ladeira íngrime, que me força as pernas;
e eu percorro admirando a paisagem, porque
ali na esquina ou no litoral, ambos são viagem