segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

fruta






há uma melancolia
inerente à existência
da qual fugimos incessantemente
pelo gosto amargo que tem

ainda é muito infantil
o nosso paladar para a vida adulta
essa melancolia num fast food
é a fruta

ela é a casca da maçã
que nós quando pequenos
rejeitamos
pedimos pra alguém descascar
sem entender que é ali
que se concentram as vitaminas

ela chega de tempos em tempos
pra te mostrar quem você realmente é
pra te alertar que está correndo de si
e que não há mais tempo pra ficar pedindo

o que você dá pra vida é o que você recebe
e já é tempo de cobrar

ela te mostra que você está sozinho
do nascimento até a morte
e o repouso de algum braço
alguma hora você vai ter que aceitar

"ou se morre como herói
ou se vive tempo o bastante pra ser vilão"
um guia moderno
pra se remover os cascos

as coisas não foram as mesmas
desde que isso me foi dito por Marcus

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

sinuca





tá foda viver na Bahia;
façam suas apostas:
por mais quanto tempo aguentarei
viver entre essas pessoas
todas com facas nas costas?

por mais quanto tempo aguentarei
o fato de que estou apenas preenchendo buracos
e que o buraco no qual me encontro
e me abandono
não me satisfaz por completo

                            [ e eu sei aliás
                              que essa completude toda
                              também é ineficaz
                              e que nenhum caminho é reto

por mais quanto tempo aceitarei
que a realidade é uma grande sinuca
na qual me esquivo das tacadas
apenas pra continuar no jogo

eis o paradoxo bilhar:
eu sem ganhar no buraco
evitando a caçapa
pra que a ficha não caia de novo

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

a minha melhor versão






amigos, amigos
somos os mesmos de sempre
não adianta esconder
e toda vez que penso que não sou mais
que não somos
que sumimos
o acaso nos permite
que apareçamos num espasmo de sinceridade
contra toda essa manobra da vida
que nos transforma
e nos deforma
em outros
que não a versão mais feliz de nós

aos meus queridos amigos
                    [ dos tempos queridos
os que vem e os que vão,
a todos vocês
a minha melhor versão;
e ao mínimo sintoma de frieza
o meu verão

terça-feira, 4 de novembro de 2014

mofo





eu abro um dicionário
pra buscar seu significado
e na minha biblioteca
busco o seu livro pra abrir;
pra em um momento de silêncio estudá-lo
e seu assunto dominar
                                     [ pra não querer dominá-la nunca
eu passo as páginas com cuidado
e tento não estragar

de capa dura e bom estado
best-seller de um autor consagrado
não ganharia um Pulitzer, aliás
um Nobel, uma vaga na ABL

as pessoas já não compram os livros
pelas palavras, pelas ideias
mas pelo cheiro de novo
pela ilustração no verso
a arte na literatura
nessas grandes livrarias
é apenas um grande comércio

e pensar nesses velhos, entediados
que não conseguem acordar num domingo
e ir na banca sem pegar nenhum;
patético.

eu me recuso e vou ao sebo
buscar entre os empoeirados
um Neruda apaixonado
ou um Bukowski amargurado
os ensinamentos melhores eu recebo
e o resto é apenas diversão

estou são
desses livros coloridos
e das páginas em couché;
de agora em diante
jornal, revista, eu não quero mais
nas páginas vazias, nada de propaganda
e no mofo de belos versos
paz

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

MPP






não raramente
em momento comigo
me sinto em êxtase
com o meu amigo interno
o meu amigo eterno
meu doce egoísmo

do soro caseiro vital
os sentimentos que visamos
nos dizem pra evitar os mundanos
e concordo
o mundo precisa clarear esse vitral
mas diante de tantos
como não se sujar?

tento balancear entre o doce e o salgado
dos paladares mais infantis aos requintados
agradar
e assim ser acessível
o máximo Pedro possível

             [  e o fato de falar de mim
                                                        é um egoísmo sem fim

adiante;

todos eles que se dizem bons
nossa, reclamam o dia inteiro
e perdem o final de semana
se o café não está legal

eu, gosto do amargo
das colheradas mínimas, além,
não fazem mal

do açúcar mínimo, também
para não ficar intragável

das vitórias mínimas eu sigo,
minha vida não é contada em anos ou meses
mas num calendário próprio que segue meu tempo
dia após dia lutando

agradecendo o aroma que vem
desse grão queimado
tão fértil ainda, se soubesse
bradaria:
me joguem à terra
eu quero crescer!

domingo, 19 de outubro de 2014

realest








so many wrong things around
you know how the world sounds
such a piece of jungle in space
floating in the void of souls

ants, robots in stock
people moving forward
with no time to stop
they not looking to where
they are running in circles

there's no clown nose
the biggest symbol of death
is a rose
moral ain't love no more
but intentions paintings
in the dark horizon we got

half a look, half a person
i may catch some good stuff in there
almost all the time it's waste
i have no time just to taste
i want to live fast, die young
everyday
i want to change my way
i won't be that old home dog
and the shortest route is have no owner

first things first
you're the realest
in a world of crowns
i really don't want to put it in a throne

i've got to create an immune kingdom
ruled by the will
and the random;
definitely this is love
in a nutshell:

just chill

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

strogonoff







a segunda opção
o convite da terça
o arroz de ontem
aquele sorriso de canto
acompanhado do
             - apareça!

o strogonoff
o pão dormido
a margarina
o queijo brie

o vinho suave
a carne de segunda
o happy hour
a micareta

o fone de ouvido com um lado defeituoso
os trailers no cinema
os semi-deuses na grécia antiga
o ringo starr

o garfunkel
o bebeto
o louro josé
o meneceu

todos eles de alguma forma
nessa noite
foram eu

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

intemperismo




tenho ficado com o pensamento meio vago
talvez desapontado, mas não tenho certeza
com relação a mim mesmo nunca pus
as cartas na mesa;
nas conversas comigo mesmo
acho que sou gago

no entanto, me entendo bem
e aplico também esse conhecimento nos outros
linguagem corporal, o olhar, as vírgulas
                                     [ o corpo é muito pontual
perceber o que há fora é moleza
quando criamos essa destreza

o fato é que tenho me sentido
meio peixe fora d'água
meio pássaro encharcado
tudo isso porque levo a vida leve
e me parece que todo mundo anda pesado
ultimamente
não parece gente da gente
e eu não sei de que tipo de gente sou

parece que me esqueci por um tempo...
que emprestei minha alma
e que por algum motivo, ou saudade
ela retornou

tem sido um grande exercício
lidar com todos esses espinhos
e ainda me pego em dúvida
se preciso retribuir
e de que forma eu o faço
se por ofensa, ou por carinho
mando a palavra flecha no peito alvo;
e eu nunca sei qual é feito carne
e qual é feito de aço

nota-se então que a dor
é inevitável
                    [ ou dói em mim, ou ainda mais nos outros
um antagonismo miserável
que me afeta profundamente
um intemperismo que me racha
em um Pedro estupidamente frio
e outro Pedro estupidamente quente

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Robin Hood





demora pra alma assentar
homogeneizar o cansaço
a paz é apenas o nome que se dá
pra quando à luta abaixamos os braços
porque simplesmente
não vale a pena lutar

o processo indolor
visto de cima
da árvore que finca a raiz
no solo fértil e frio
não é tão indolor
se perguntado à terra roxa
cheia de si pelo chão
que de muito longe parece vazio

doce ilusão, essa de mudar o mundo
as pessoas, a realidade ao redor
somos eternos insatisfeitos
eternos imperfeitos, eternos ingratos
se estamos diante do melhor

"Quae sunt Caesaris, Caesari";
da vida o que temos de bom
é o que temos em mão
amar é deixar o peito em cativeiro
sem esperança de salvação

quando a menor palavra tem efeito
quando o menor efeito te maltrata
quando você faz de tudo pra não ver defeito
você percebe que a ilusão é a qualidade do perfeito
e que a verdade
                            [ a intimidade
só estraga

para a doce mentira que criamos
sentimentos são adagas
que eu prefiro não apontar
no meu circo de atiradores de facas
e o grande truque consiste
em desconcentrar pra não acertar

foco nos outros sentidos:
basta proteger os ouvidos;
no fim das contas em atitude
uma linha muito tênue separa
o cupido e o Robin Hood

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

pólen







penso se somos nós mesmos
perdidos no AP DeLorean
onde eu volto e avanço no tempo
onde eu volto e avanço contigo;
pensando alto e falando besteira
fingindo que não estou tão ali

lençol tatame, janelas abertas
eu me perco em suas cobertas
tentando me esconder de você;
trocamos sorrisos flores
enquanto rimos de buquês

destilando a dor pra formular antídotos
capturando um passado cobra
como botânicos num jardim ferido
pela chuva e coberto de lama até as bordas

só abraços são sóis; nós
somos dois; secando o chão
sem rodo e sem rodeios
vamos pisando mais firmes
até esquecermos os freios

pra florecer sem medo
e não precisarmos de cordas
descermos de rapel
ou bungee jump
aos nossos pés;

pra destruirmos o teatro
transformar a tragédia em comédia
ao gosto do dia;
invertermos de papéis
mergulharmos na colméia
que são os nossos braços
                 [  sem achar tudo meloso
                 [  pra demorar de enjoar
desenhar o dia
com os nossos traços

formar um atlas
dos nossos planetas
pra não nos confudirmos
ao aterrissar;
enviar uma nave ao teu ouvido
pra te dizer com todas as letras
aquilo que nos une sem hesitar

- acoplar um módulo
pra aguçar o sentido;
- dividir o almoço;
- brincar de marcar teu pescoço
e deixar apenas um esboço;
- esquecer da vida nas gotas que caem;

eu morreria de dúvida
se tivesse que escolher um momento
dentre estes pra eternidade esticar;

quero te sentir como vento
rezando pra que ele se vá lento;
ou se torne tornado
numa frente de ar quente;
você torna a minha vida
um doce tormento...
carregando contigo o pólen
que colore o meu peito
antes de ti tão cinzento...
se continuar,
mudará meu horizonte
ano após ano.
a minha vida é só primavera
quando digo
que

domingo, 3 de agosto de 2014

ternos







dois comentários
como torrões de açúcar
azedos no nosso chá
a verdade é um bombom de fel
coberto de chocolate
meio-amargo
que ao colocar na boca explode
custei tanto a acreditar
que enriquei
nesse "tudo que é profundo fode"

você diz que acredita
nisso de queremos tudo que não temos
vamos combinar assim
de não nos querermos então
e ternos, ter-nos
sufocar com travesseiros
essa sensação de vida
ao vivificarmos a cama
por inteiros

os pés gelados
denunciam nossos corações
pés nas coxas, nós nas coxas,
mornos então
pensando nas paredes roxas
e não nas razões
da solidão

só de sorrisos vivermos
lagrimas não existem
o choro é um delírio;
pra lubrificar o olho
já existe o colírio
ou o óculos escuros
ao sair ao sol do abrigo
depois de um dia de molho
contigo

terça-feira, 29 de julho de 2014

egoísmo







vou vivendo como
se o passado fosse rascunho
do presente ou do futuro
eu, mouribundo escritor
apontando pros cantos
com a minha pena na mão
digo, sem pena

são 12:00 dessa nublada cidade
quando a mim se apresenta
uma distante face
perdida no passado
olho nos olhos dela
e me vejo

porém não era o mesmo
que vejo quando me encontro com o espelho
dessa vez, havia outro ali
e comecei a contar as rugas
novesfora, 2 sobram
sei que sou eu há alguns anos

e começo a dialogar não com ela
mas comigo
o que fazia eu ali diante de mim mesmo
após tantos anos?

eis que responde o mancebo:

a ti foi dada a dádiva
de retirar o véu do futuro
soprar a poeira do passado
                        [ dentre outras coisas
você tem controle daquilo que vê
daquilo que sente, daquilo que faz
você manuseia as engrenagens do destino
e eu te dei esse presente

e os lábios se moviam, ela falava comigo
mas eu não conseguia me desprender desse eu amigo
e pensei comigo mesmo se não era egoísmo;
bom, seria se fosse em mim,
mas este eu habita nela:
que moça egoísta!

despedidas feitas,
deixo a cargo dele sanar as dúvidas
nunca fui de confiar muito nos outros
mas confio nos outros que existem em mim

quinta-feira, 24 de julho de 2014

zumbi






 já era
fui beijado pela morte
e poucos são esses
acredito que tive sorte
se "o que não te mata te fortalece"
me sinto forte

as pessoas vivas
com tanto sangue a escorrer
mal sabem que na juventude
há muito sangue a se perder

que a gente fica um pouco pálido
e frio
no começo achamos tudo um tanto vazio
e então começamos a ocupar
como zumbis inteligentes
com QIs fantasmagóricos
vivendo o dia de hoje
pensando num amanhã escatológico

nós estendemos a brevidade da vida
com uma vida bem vivida
porque ao invés de perder
nós só temos a ganhar
e de cérebro em cérebro
moldamos um coração
bem convicente

domingo, 13 de julho de 2014

não ligo







idade média, tudo era fogo
pouco motivo e já se queimava;
pra percebemos depois
que dos sentimentos medievais
pouco levamos além das cinzas

na revolução industrial já não há tanto calor
as cinzas sobem ao ar
e agora em neblina te dificultam de respirar
de enxergar o que há à frente
daí: você lâmpada

e as coisas se clareiam
a luz, chamada de artificial
me parece bem natural
se eu entender que sou eu que ligo;

nem todos os pontos são claros
e de poste em poste
você fica insatisfeito
e decide não mais ligar

logo entende que não ligar é um grande passo
o seu olho se acostuma com a neblina
e o seu pulmão cria resistência suficiente
pra correr sem cansar
o ambiente bucólico é até aconchegante agora
dois casacos no peito e você está pronto pra guerra

é quando você percebe finalmente a razão
dos envolvidos com arte
e sua reclusão:

de 'não ligo' em 'não ligo'
você apaga;
acende uma vela pra disfarçar
como num sinal poético
você deflagra

                  [   que não num curto espaço de tempo

com algum curto circuito
quem sabe você até pode queimar

sem juras, sem juros,
eu não ligo, ninguém liga;
menos calor, mais seguro
e mais puro
no escuro

quarta-feira, 9 de julho de 2014

ofício






a manhã fria me bate
me acorda no grito
eu a imito
do jeito que dá
do jeito que sou
e daí me permito
esquentar um pouco
com o café como desculpa

a mente inquieta
a solitude acompanhada
na solitude do meu velho
e umas risadas tímidas
'desjejuam' o amor contido
por anos e anos
nos nossos planos

eu não estou livre da maldição
é mal de família
não ser de bem
             [ no bom sentido

fico pensando se sou como eles
se guardo aquele cansaço no olhar aqui adormecido
nele tão latente,
e vívido como se fosse criança;
então num flash o enxergo na infância
talvez eu como seu pai
e vamos invertendo os papéis
evitando os assuntos cruéis
e falando as verdades numa aula mútua
- tão mais importantes são nossos laços
                                                       [ fiéis

nós compartilhamos o sangue
definitivamente
e a dor que corre em suas veias
me faz revirar ao dormir
ah, se eu pudesse
enfiar-me em seu corpo
pra convidá-la a sair

entendo agora sua função
quando enxergo o seu papel
escrito no tempo à aquarela de lágrimas
colorido nos sorrisos
das palavras descuidadas
e dos erros precisos
desbravando um caminho novo
na história, expandindo a memória
ainda que esse exemplo
seja um sacrifício

sem dúvidas
ser mãe é uma dádiva
                     [ ou pena

ser pai é um ofício
difícil

segunda-feira, 7 de julho de 2014

glimpse






num piscar de olhos
andando durante o dia
mudo como se as coisas fossem tão simples
como se não tivessem valor
eu não quero mais sentir
e quando penso que não viveria sem algo
pisco os olhos e voilà, já não me faz tão sentido

mas aí pisco novamente
e vejo tudo de novo em mim
eu ainda não decidi
se isso me sufoca ou me liberta
mas o fato é que é mais tranquilo
de viver
assim

tão difícil quanto o curso de medicina
na vida você aprende a conter hemorragias
e aí você entende o porquê de médico
não sentir medo de sangue

já não sinto passado
já não sinto futuro
o presente manifesta-se como poste
na madrugada da minha vida
onde o restante está escuro

o peso que antes eu carregava
agora está no chão
mas me responda, asfalto
levou também meu coração?

será esse desconforto necessário
para o sentimento?
dói tanto assim no Chico Buarque?
seria ele hoje como eu,
um simulacro da realidade;
sargento aposentado de guerra
que queria ter uma bomba?

código morse
já não sinto, eu sinto muito
olho a olho criptografado
numa senha confiada à convivência
seguros, conectados
seguimos atados
sem esperança
mas abraçados

quarta-feira, 18 de junho de 2014

sal





eu entrei numa obra do Picasso
um quadro cubista
de nome "conquista"

na tela duas faces estáticas
enquando um córrego de pensamentos ecoa
entre os olhos falantes
as bocas o acompanham por hora
mas o silêncio é predominante
-

você percebe o meu tapa-olho
e me pergunta se eu não tenho medo
de limitar minha visão
ou se agora eu tenho a maldição do David Bowie
ou se ainda tenho um coração

então eu te mostro
estendo a mão
e você vê um músculo intacto
salgado, diante do mar em nós
e assim ele estará pra sempre
imune às bactérias do ambiente
mas vivo e quente por dentro
quando estivermos sós

num canto, um canto
talvez você seja uma sereia;
em outros tempos desejei que você fosse vampira
pra me sugar o pescoço
e me levar pro seu lado

mas agora que sei nadar
enfie uma faca no meu peito
e me faça sangrar além do sal
me faça afundar

pra colorir de vermelho
o azul do seu cabelo
e matar de inveja os tubarões;
dando pistas do amor
escondidos nos xis
como baús em nossos corações

quarta-feira, 11 de junho de 2014

guia prático para evitar decepções (ou como sobreviver no mundo moderno)







blá blá blá
o mundo sempre foi moderno
e as pessoas sempre tiveram a mesma dificuldade
de lidar com os problemas
na flor da idade
e com o blá blá blá

fica aqui o meu maior conselho:
não crie expectativa
aí está a mais exata das ciências pra comprovar
o jornalismo é uma arte necessária
que precisamos desempenhar mesmo sem ser jornalistas

mas alto lá você que dá notícia
sem perguntar
ou você que dá notícia da vida alheia
há sempre esse que deturpa o papel da ciência
com coisa feia

desses eu quero distância
eu não quero ver
eu não quero abraçar
desses eu quero apenas a notícia
de que sobrevive
bem
e que é feliz
mesmo sem estar

a vida é um jornal
editoral
e eu não quero viver
nas páginas que profetizam
a novela da TV

segunda-feira, 9 de junho de 2014

do que as pessoas precisam




FRIENDLY ADVICE TO A LOT OF YOUNG MEN
Go to Tibet
Ride a camel.
Read the bible.
Dye your shoes blue.
Grow a beard.
Circle the world in a paper canoe.
Subscribe to The Saturday Evening Post.
Chew on the left side of your mouth only.
Marry a woman with one leg and shave with a straight razor.
And carve your name in her arm.
Brush your teeth with gasoline.
Sleep all day and climb trees at night.
Be a monk and drink buckshot and beer.
Hold your head under water and play the violin.
Do a belly dance before pink candles.
Kill your dog.
Run for mayor.
Live in a barrel.
Break your head with a hatchet.
Plant tulips in the rain.
But don’t write poetry.








estive pensando
na real necessidade humana
e se há uma distinção
entre o que é natural
e o que é autêntico

sim, tudo que é natural é idêntico
e não é preciso muita filosofia para perceber

eu sou técnico prático em computadores
entendo como funcionam
eles cuidam de muitas tarefas por si
para que possamos criar em cima
se perdêssemos tempo com essas tarefas
nada faríamos

então, na vida não haveriam tarefas assim?

a real necessidade humana
é perceber essas tarefas
e largá-las de mão
ou delegá-las a alguém
ou delegá-las a uma parte de si que não sente tanto
ou aprender a fazê-las de uma forma que não te prejudique

ou simplesmente nascer com talento
o que é um grande tormento
na mente daqueles que não o tem
                        [ não que eu o tenha
mas não me é um tormento
porque eu acho que o talento
nada mais é que gente que percebeu mais cedo
tudo isso aqui exposto

então eu percebi
que a real necessidade
é não ter tormentos
perceber os momentos
e trabalhar duro
para ter uma mente limpa
e um coração quase puro

é olhar para os lados apenas pra desviar dos perigos
é não enxergar ídolos senão um obstáculo
para seus objetivos
é se espelhar em alguém, mas não almejar ser alguém
é não querer ser/ter ninguém

é simplesmente perceber-se
e criar-se
independentemente
do que existe
é estudar seu código
e ampliá-lo

muitos dizem que as pessoas precisam
de um tapa na cara para acordar pra vida;
eu acho que a maior parte das pessoas
precisa simplesmente de uma cara
e daí jogar fora as máscaras
assumir-se
e sumir-se
e ver o mundo à sua volta
explodir-se

quinta-feira, 5 de junho de 2014

anarquia

sentir com inteligência, pensar com emoção






você me corta à metade
me dichava
me mistura e eu continuo sendo o mesmo
muito diferente depois de você
eu vejo chaves perdidas por aí
mas você me abriu na primeira tentativa
então eu fico

minhas veias mudam de rotas
meu coração tem novas artérias
retas e precisas
que se ligam diretamente ao cérebro
antes influenciado por vias tortas

você me reescreveu por completo
me tirou da era glacial
como na formação do planeta
eu ao contrário
fui vulcanizando-me
e agora resfriado
me percebo melhor

você me fez perceber-me imortal
você me evitou de ser amoral
porque o seu crime e anarquia
me conduz a uma nova
e mais tranquila
ordem social
                       [ interna


nunca houve como você ninguém
eu suspeito que nunca haverá
não me há o medo de perder-te
vez ou outra te encontrarei
só não quero me afastar
completamente

porque quando a vida não nos permite
é que acho que ela foi feita pra gente

anfíbio







eu não acho que o destino
seja a mão que escreve o texto
mas definitivamente
ele desenhou as linhas
por onde escreverei
e se antes eu estudava caligrafia
no livro de filosofia
agora faço feitiçaria
e desenho também

há muito o que viver
vou correndo como anfíbio saído do mar
da costa vislumbro a doce brisa que me toca
que me convida a sair da toca
e me provoca
a desbravar profundo
horizonte adentro
o mundo

há muito a conhecer
tenho pernas fortes
mas a minha mente ainda é mole
e embora eu aproveite a situação para moldá-la
invejo em parte essa cura dos velhos
com suas dores cristalizadas
belas
vitrais
infelizes claro,
aqueles que não toleram os deslizes;

ah, os que aceitam as imperfeições
estes enruguecem felizes
estes enriquecem-se em cicatrizes
a fim de não sangrar mais

é desta cria que quero fazer parte
a cria da arte
tenho que sentir mesmo, pra lembrar destes ventos
nos dias em que eu tiver os meus passos lentos

terça-feira, 3 de junho de 2014

brasa






eu tento entender
de cima
o clima
e não o tempo
como que num prisma
acima do céu nublado
o colorido sem tormento
vive pra demonstrar
que ele existe e não é um momento

                   [ fora as pessoas plenamente horríveis
não há pessoa plenamente horrível
o olho do furacão
o bastardo anticristo
é uma grande ilusão

em algum lugar reside
mesmo que escondido
algo incompreendido
que nós chamamos de coração
e que por vez ou outra
machucamos com uma faca
que aceitamos de bom grado

vamos nos marcando
como gado
e ao final
ficamos abatidos

e vamos procriando
a ideia do herói e do bandido
enquanto salvamos um hospital
e assaltamos um banco
lá dentro o peito em brasa e cinza
cá fora um sorriso branco

sexta-feira, 23 de maio de 2014

sinalizador






você pode perder o rumo
perder a bússola
perder a cabeça
perder o bilhete de volta da estação
perder os sapatos
e ficar sentada
mas você não pode perder
o sinalizador que está no seu bolso

quando não vir mais minha sombra
atire pro alto
que eu apareço

você pode colocar fogo no mundo
explodir o escritório
explodir meu quarto
implodir seu espírito
implodir qualquer rastro de algo que já tenha sido
mas não imploda esse chafariz que eu fiz
onde os passarinhos que fogem de sua tempestade
matam sua sede
pra depois pousar em mim

você pode inundar o banheiro
esquecer ligado o chuveiro
inundar meu olho
inundar meu jardim
você pode inundar minha cama
e ainda assim eu dormirei contigo

você pode até não fazer nada disso
você pode simplesmente
continuar sendo assim
mas continue sendo
mesmo que seja diferente

quando fizer sol
vou procurar o guarda-sol
pra que não queimemos
na exposição em demasia

quando chover
vou procurar o guarda-chuva
pra que não gripemos
no impacto da gota fria

se molharmos os pés
vou buscar sapatos novos
antes de queimarmos as mãos
te darei luvas

e assim, nos adequando
a cada situação
viveríamos a vida em vela
derretendo sempre
e queimando de novo

                [ iluminando o quarto

domingo, 18 de maio de 2014

UTI






é preciso estar
profundamente machucado
e se recuperar lentamente
para perceber a beleza na tragédia

como o Rocky
subindo as escadas da universidade
                                      [ sem estudar
como Alexandre, O Grande, ao subir
os morros da Prússia
depois de perder os melhores amigos

é preciso ir pra UTI
e assistir programas de culinária
enquanto te tiram as amígdalas
ou fazem uma redução de estômago

é isso,
uma redução de estômago

você já não processa tanto alimento
você começa a compreender os chefs franceses
com os pratinhos pequenos
decorados com um folhinha
nesse estado uma feijoada já não lhe é tão agradável
mas você coloca algumas colheres no prato
e saboreia o que um dia você se fartou

e você o faz assim porque naqueles dias
você passou mal, você exagerou
existem os que defendem
mas você sabe que é algo muito pesado
se você ingerir demais, você pode passar mal

você mastiga com mais cuidado
percebe melhor os sabores
você passa uma semana num deserto
para poder perceber melhor os aromas
que estão à sua frente
à sua volta
                       [ no seu retorno


você se torna um ser melhor

porque os banquetes àqueles
que só estariam ali pra se fartar
poderiam muito bem
ser lavagem para porcos
eles sairiam felizes
enxugando a boca com a camisa
porque eles só estão preocupados
se algo é doce ou salgado

então que suem para o sal
e que derretam-se em açúcar
-


deixemos-os
e
vamos nos sentar
numa próxima ocasião
para ter uma boa conversa
desfrutando essa maçã de sabor suave
que colhemos numa árvore
enquanto passeávamos no Éden

terça-feira, 13 de maio de 2014

marginal







eu não nasci pro script
não sou peça de teatro
pessoas vem me perguntar
o que eu faço diante de alguma situação
e a minha resposta é sempre
a solução

não há fato
o fato é produto da decantação
do ato
e embora concreto
o fato é morto
e a circunstância
é feto

a minha querida circunstância
que me evita a constância
que me permite viver
me permite sobreviver
e ver
o que existe por baixo dos panos
o significado belo da palavra 'revelar'
como por em vela a realidade
pra navegar

eu vivo em dissonante
                              [ bastante
escuto a nota de ouro
                              [ divina
eu não acredito em sina
muito embora pra mim o destino
seja um tesouro
tecido nas cordas do piano magistral
das dimensões de realidade

num requiem para as mentes paradas
eu almejo ser um equilibrista
cada vez mais marginal
enquanto me chega a idade

segunda-feira, 5 de maio de 2014

feno






eu tenho a mania de fazer um buquê
com as flores perdidas
e eu não sei o porquê
essas flores doídas
com pétalas caídas
que não sabem o que fazer
são dessas flores que eu cuido
vidas

eu não consigo ser metade
nem cara-metade
nem metade coração

eu vivo na dualidade da emoção

eu não consigo viver
como se o que eu sentisse
fosse feno
que eu rumino e engulo
como algo pequeno
tão pequeno
como se eu não engolisse

se tudo que sinto tem cheiro
se tudo que eu sinto tem cor
se o meu sexo tem amor
e o meu amor tem rosto
já que o corpo sem amor
pra mim não tem gosto

eu ainda não sei
não resolvi o mistério
se essas flores fazem disso
um jardim
ou um cemitério

sexta-feira, 25 de abril de 2014

enterprise





uma parede nebulosa
rosa
é a última lembrança que tenho em mente
o tempo e espaço já se foram muitas vezes
dobrados na cabeça da gente

eu era um exilado
alien no meu espaço natural
havia a necessidade
desse sonho sideral
então eu me joguei
porque não é mais legal
estar em órbita constante

eu queria saber se era possível
dobrar o tempo espaço na minha cabeça
de forma que eu continuasse distante
de uma forma que esse planeta
não me esqueça
nem mesmo por um instante
e eu queria te dar de presente
uma luneta

simplesmente estamos em órbita
atração consciente e não mais desenfreada
eu estabeleci agora estável
uma rota saudável, visível a olho nu ou lente
como a lua e o sol
em galáxias diferentes

vida enterprise
eu o sunset
e você o sunrise

terça-feira, 15 de abril de 2014

além







vocês sabem
eu adoraria viver uma vida normal
mas pra mim é algo tão valioso
seria um desperdício vivê-la assim

os meus amigos me repreendem
eles querem um bom amigo
os meus amigos querem ser meus amigos
mas eles não conseguem ir além comigo
porque eu fui além
e porra
que mancada
todos fugindo da chuva
e eu renegando um abrigo

eu poderia fazer alguém muito feliz
poderia nesse exato momento ter um cachorro
e uma casa
poderia estar formado e estar iniciando mestrado
nesse momento eu poderia estar casado
mas "eu" não existe nesse momento
então eu não fiz nada disso
nesse tormento admito o papel de mero observa-dor

a minha Terra gira ao contrário
as minhas nuvens chovem pra cima
no meu mundo eu ando voando
e vôo no chão com o coração na mão

um mundo estranho e hostil
onde admitimos a hostilidade
por isso um mundo gentil
quando às diferenças brindamos a hospitalidade

um mundo de verdade
onde todos são estranhos
e se completam pelas diferenças
sem medo da honestidade

sexta-feira, 11 de abril de 2014

o rock é a minha saída






o rock n' roll me ensinou
a cantar minhas misérias
num acorde maior
não vale a pena derramar sangue
quando há vodka por aí
e com vodka tudo fica melhor

não vale a pena gritar
quando uma guitarra pode fazê-lo por mim
não vale a pena
choramingar pelos cantos
   
                  [ como um moleque hipogloss
                  [ ou um qualquer cheira talco

se eu posso criar uma cena
num palco

o rock me ensina a viver todos os dias
me ajuda a enxergar a beleza nas distorções
                                                             [ da vida
e embora eu cante
da alma o meu amor
a minha arritmia
os nossos corações

o rock é a minha saída
de todas as situações
e talvez seja a guitarra
a maior de minhas paixões

sexta-feira, 4 de abril de 2014

braille






cerrando os olhos pra não se ver
tirar a venda dói
já vi muita gente com conjuntivite
mas daí trocam as vendas por novas
coloridas, bonitas e caras
e vão vivendo em braille os corpos
tapados

eles não são malvados
só estão buscando uma forma de se maquiar
porque nasceram sem o brinquedo
que os permitiam aprender
os detalhes de como funcionam
o treco na cabeça que me faz
                         [ e tem me feito
ser

não que eu fuja da maré
da sina de viver algum papel
de pé
e admito até que é necessário um pause
vez em nunca ou vez em quando
pra manutenção do equipamento social

ser normal é risível
resista;
não sabemos ao certo o que é
nada certo senão o pretérito
o futuro é um mérito
sob algum ponto de vista

cromossomos






assimilar o fenômeno comum
pensar como mulher
é um teste
feliz

do século XXI


só lhe falta o sentido
a sensibilidade necessária
a masculinidade é uma disfunção hereditária
como se você nao tivesse um nariz
como se comesse sem sentir o gosto
entende?

porque nascemos com a cara lisa
e são os nossos pais que vão moldando
o olhos de ver a dor
o nariz de sentir a paixão
a boca de soltar o amor
e o ouvido de absorver a verdade
daí o cuidado de não sermos pais
enquanto não formos deuses
daí a necessidade da mãe
para nos ensinar
a honestidade

como o médico que sutura o porco
antes de pegar na gente
como não entrar numa piscina antes de atravessar uns oceanos
e de humanos vamos nos tornando semi-deuses
ternos como Guevara, Frida e Elis
humanos

homens no avesso do avesso
vamos pensando nos pingos dos i's
nó em pingo d'água diário
estamos sempre por um triz
por termos só o cromossomo X

couro





eu,
ao contrário dos planetas normais
vivo em órbita de um sol de gelo
congelado pela apatia da vida
e pela experiência

e eu tô sempre andando no horizonte
fugindo
com uma tocha na mão

no entanto,
há uma hora que você se esbarra
tropeça
e não escapa

então nesse momento
eu preciso me adaptar
e meu corpo desenvolve
um couro necessário
como o das jaquetas dos rock n' rollers

e uma vez dentro dele eu reinicio o ciclo
de me esquentar

sábado, 22 de março de 2014

acidente







o fato é que não existe
o amor como imaginamos
e eu não sei se estou disposto
a acordá-los dessa mentira

eu não acho muito saudável
subtrair um rim ou um fígado
mas o lance é que eu não tenho mais nenhum dos dois
então pra mim é fácil

eu não acredito mais
e eu não sei se devo ensinar
mas não existe
o que existe é o encontro casual
infelizmente
o amor é uma obra acidental
é uma pintura surrealista
somos geniais sujando o quadro
então eu sujo

tento não idealizar
mas no fundo idealizo
porque mesmo esse acidente
já está em minha cabeça
então eu percebo que nunca experimentarei
o amor como eu penso
que é narcisista
se eu pensar do ponto de vista
que eu quero alguém como eu

infelizmente
o amor
é pra ser tomado
em doses homeopáticas
e talvez seja um sinal
de que ele não é para nós
que amamos

terça-feira, 11 de março de 2014

entrelinhas







o tato social poderia ser encarado como uma deficiência
uma habilidade que não consta nos currículos
um requisito que esqueceram de nos pedir
mas que está em todas as cartas de emprego

um curso que é aparentemente uma perda de tempo
e que vai nos distanciar do que realmente importa
que vai nos levar a uma vida torta
buscando sempre os caminhos alternativos, as brechas

um curso dolorido, invisível
com testes ninjas invisíveis
como desviar das palavras facas
se esconder na clara realidade obscura
saltar sobre os telhados dos corações
e ainda assim
ouvir o bater de asas da benévola mosca
perante um som a toda altura:
a cultura

os tempos modernos nos exigem a interdisciplinaridade
hobbistas de psicologia, psicanálise, antropologia, ufologia
porque a inteligência artificial está evoluindo
e é cada vez mais importante decifrar
a linguagem entrelinhas
ou os algoritmos que capturam
os alienígenas como nós
num qualquer programa SETI
ninjas que estudam, trabalham,
amam no tempo livre
e meditam em cachoeiras Lorenzetti

terça-feira, 4 de março de 2014

teia








continuando a série sobre a descoberta
de como estamos programados
ou como as engrenagens são lubrificadas
dissecando as opiniões lançadas
e as ideias pré-fabricadas

hoje a dúvida que me resta
é até onde seremos os mesmos
daqueles que conhecemos
e qual o laço que nos liga
senão a irmandade verdadeira

porque eu não acredito em outro laço
todos os outros são efêmeros
todos os outros são simples fome de espírito
momentânea, como que por ansiedade

os contatos, o destino
o ser humano à nossa frente
se você não perceber a teia que nos envolve
e se você não souber andar nela
você cai ou se prende

perceber o outro pela essência
dissociar o costume
depois de tantos fatos vivenciados
é uma ciência

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

remédio






alguém me explique
essa mágica e mistério
que envolve a atração
eu já pensei em mecânica
mas Newton se apaixonaria
ao tentar comprovar
a gravidade

o que havia em Julieta?
seria a pinta de Marilyn?
o talento de Frida...
onde habita a resposta
de onde o um
vira dois

Freud estaria incorreto?
pois os porquês são irrelevantes

décadas reféns de um instante

sedativo natural contagiante
por anos, meses, ou dias
a depender da feitiçaria
poderia ser tédio
ou remédio pra alergia
mas nós chamamos de amor

domingo, 23 de fevereiro de 2014

medalha







carrego no peito uma tatuagem
em forma de cela
a prisão da noção
eu não me sinto mal, aliás

e eu deveria receber uma medalha
por todos esses anos lutando
para não ser apenas mais um deles
a maratona está rolando
e eu estou assistindo com uma vodca
ou água de coco na mão

eles se comem
e raramente vomitam
todo esse bolo vai se aglutinando
e virando um pudim
que eles oferecem por aí
a preço de ouro
numa bandeja de prata
da mesma forma que a cabeça de João

dou uma dele mesmo sem braço
faço de conta que estou no jogo
a cabeça está lá, mas o coração está aqui
na verdade, apenas lanço as cartas
para que a mesa não perceba
a sorte que me sorri

a ignorância não é uma benção
eu prefiro simulá-la
agir de acordo com o que sinto
me faz perceber a realidade
sem ingenuidade
para manipulá-la

continente







a maior parte das pessoas está tentando provar as suas verdades
a todo custo
eu ao meu passo, sigo descobrindo novas todos os dias
a incerteza enquanto meio de verdade
desse caminho tortuoso, fino como uma navalha;

e você não precisa enxergá-lo perfeitamente
andar de cabeça erguida é o prêmio que recebemos
ao nos cortamos algumas vezes

fazer das pessoas um mapa
cartografia psicológica
descobrir novos países em cada um à frente
como se estivéssemos mergulhados em infinitas possibilidades;
a vida oceano e nós o continente

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

paz






o destino é consciente
e muito generoso
ao dispor sobre mim
tanto conhecimento rápido
para esse corpo vagaroso

sentir como eu sinto
perceber o infinito
e mesmo sem entendê-lo
vivê-lo
na arte do zelo

me depurando
me apurando
experimentando a dor
e instrumentalizando-a

a música como instrumento jornalístico
de uma manchete sentimental

vou trocar o carnaval pelo ar puro
duro
sem perder a ternura jamais¹
sair de cima do muro
ouvir Patsy Cline
e ainda assim estar em paz

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

verdade







três ou quatro pedros
habitam em mim
imigração de janeiro em janeiro
horas acho que transbordo
noutras penso que não estou inteiro

a beleza nas impossibilidades
a vaidade
a verdade
deságua em mim
(acho que estamos submersos)
e tenho que perder o medo
de me sufocar

ter a realidade percebida
                      [ recebida
mergulhar como se estivesse na tenra idade:
me afogar na vida
de verdade

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

gentileza






gentileza gera gentileza
ainda que tardia
as pessoas estão em carne viva
andando por aí
e é necessário um pouco de cuidado
ao tocá-las

porque algumas simplesmente
desconhecem o fato da pele
não ser armadura
e se atiram em abraços quentes
ou em mata-leão
calores juntos contra a apatia da segurança tediosa
um rastro de sangue compartilhado
de irmão para irmão

e quando não ponderam
acabam se machucando mais
um toque vira aperto
um aperto vira beliscão
e assim se não tomarmos cuidado
arrancamos um coração

pesado







acordei e estava nublado
desses dias que dá pra dormir
mas que apesar de todas os fatores
você se torna insone

dia de acordar cedo pra comprar pão
receber a garoa no rosto
sentir o verão feliz ao som dos Smiths
mas não havia garoa, o vento estava seco
e os Smiths eram os Smiths

dia de olhar o reflexo das luzes
no carro molhado
mas o carro está sujo
e o dia, acinzentado

nada no dia tem graça
tudo sem cor, sem alma,
nesse dia o seu lar não é seu lar
a gravidade faz o chão ficar mais pesado
e para escorregar basta estar liso

o sol não está no lugar
mas num distante sorriso

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

v-ivo





definir um cronograma pessoal
de transformação e enriquecimento
nada material
ou de momento:
barco em direção ao tormento
para vôo astral

esculpir a mente cimento
derreter tal qual cera
chutar as formas

sê artesão de si
abuse das ferramentas à disposição
sinta necessidade da adrenalina no coração
amplie o crivo
se sinta v-ivo

se indisponha para o imaturo
e se disponha ao salto
não é preciso asa pra perceber
que a vista é mais bonita
do alto

:)

sábado, 1 de fevereiro de 2014

porta






cheguei nessa ilha,
fiz dessa barraca o meu abrigo
gostei do ar e da natureza,
e encontrei uma trilha
ainda que no vento perigo

morei meses sem destino
não me importava e não me importa
pois essa ilha é aberta
mas ainda assim nela
procuro uma porta

                   [ que me procure
                   [ que me cure

que me faça esquecer
todo o sub-consciente impuro
sem o auxílio
do Carpinejar, da Regina, ou do Cury

sem auxílio de bússola ou mapa
pois a bruma é constante
e um sinal de conquista
um sinal de luz, uma ação
espontânea
é confortante no instante


continuo
                           [ errante

diante do astro-lábio

                           [ de pé

(às vezes num inútil processo de auto-destruição)
tendo fé
que talvez a gente ainda encontre explicação

                          [ nas entrelinhas

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

luminescente

reverbere-se
depure-se
seja a luz que falta
em si





é preciso saber reverenciar o outono
no final do verão a chuva
nos inunda
e no inverno o frio
nos cobre de pano
e de sono

efeito do solstício e equinócio
dentro de nós
como se o que aqui fora fosse um sol;
devemos fugir de qualquer ócio
físico
mental
o ócio nos deixa sós

a cabeça é um giroscópio
uma luneta pros astros mais elevados
então não aponte pro chão
cuidado com a mão
a gravidade é vilã
e pode nos deixar malvados

meu coração cadente
tem calda luminescente
e já não queima em qualquer atmosfera mais
males que vem para o bem
de uma alma espacial
especial

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

oceano





falar não é opção
qualquer ato é involuntário
estado nulo
como se uma parte de mim
estivesse em outro estado
pulo
como num ato missionário

é muito simples, é mito
talvez devesse queimar um mato
qualquer devaneio vapor
é um barato
dos ruins
como um ópio vencido
comido por cupins
num prato
                          [ o famoso medo da cara-de-pau que é uma grande furada

e aí inundo a mente pó
arrasto o lixo para debaixo do pano
tento aguar a tensão com suor
pra transbordar de paz esse oceano