quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

remédio






alguém me explique
essa mágica e mistério
que envolve a atração
eu já pensei em mecânica
mas Newton se apaixonaria
ao tentar comprovar
a gravidade

o que havia em Julieta?
seria a pinta de Marilyn?
o talento de Frida...
onde habita a resposta
de onde o um
vira dois

Freud estaria incorreto?
pois os porquês são irrelevantes

décadas reféns de um instante

sedativo natural contagiante
por anos, meses, ou dias
a depender da feitiçaria
poderia ser tédio
ou remédio pra alergia
mas nós chamamos de amor

domingo, 23 de fevereiro de 2014

medalha







carrego no peito uma tatuagem
em forma de cela
a prisão da noção
eu não me sinto mal, aliás

e eu deveria receber uma medalha
por todos esses anos lutando
para não ser apenas mais um deles
a maratona está rolando
e eu estou assistindo com uma vodca
ou água de coco na mão

eles se comem
e raramente vomitam
todo esse bolo vai se aglutinando
e virando um pudim
que eles oferecem por aí
a preço de ouro
numa bandeja de prata
da mesma forma que a cabeça de João

dou uma dele mesmo sem braço
faço de conta que estou no jogo
a cabeça está lá, mas o coração está aqui
na verdade, apenas lanço as cartas
para que a mesa não perceba
a sorte que me sorri

a ignorância não é uma benção
eu prefiro simulá-la
agir de acordo com o que sinto
me faz perceber a realidade
sem ingenuidade
para manipulá-la

continente







a maior parte das pessoas está tentando provar as suas verdades
a todo custo
eu ao meu passo, sigo descobrindo novas todos os dias
a incerteza enquanto meio de verdade
desse caminho tortuoso, fino como uma navalha;

e você não precisa enxergá-lo perfeitamente
andar de cabeça erguida é o prêmio que recebemos
ao nos cortamos algumas vezes

fazer das pessoas um mapa
cartografia psicológica
descobrir novos países em cada um à frente
como se estivéssemos mergulhados em infinitas possibilidades;
a vida oceano e nós o continente

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

paz






o destino é consciente
e muito generoso
ao dispor sobre mim
tanto conhecimento rápido
para esse corpo vagaroso

sentir como eu sinto
perceber o infinito
e mesmo sem entendê-lo
vivê-lo
na arte do zelo

me depurando
me apurando
experimentando a dor
e instrumentalizando-a

a música como instrumento jornalístico
de uma manchete sentimental

vou trocar o carnaval pelo ar puro
duro
sem perder a ternura jamais¹
sair de cima do muro
ouvir Patsy Cline
e ainda assim estar em paz

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

verdade







três ou quatro pedros
habitam em mim
imigração de janeiro em janeiro
horas acho que transbordo
noutras penso que não estou inteiro

a beleza nas impossibilidades
a vaidade
a verdade
deságua em mim
(acho que estamos submersos)
e tenho que perder o medo
de me sufocar

ter a realidade percebida
                      [ recebida
mergulhar como se estivesse na tenra idade:
me afogar na vida
de verdade

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

gentileza






gentileza gera gentileza
ainda que tardia
as pessoas estão em carne viva
andando por aí
e é necessário um pouco de cuidado
ao tocá-las

porque algumas simplesmente
desconhecem o fato da pele
não ser armadura
e se atiram em abraços quentes
ou em mata-leão
calores juntos contra a apatia da segurança tediosa
um rastro de sangue compartilhado
de irmão para irmão

e quando não ponderam
acabam se machucando mais
um toque vira aperto
um aperto vira beliscão
e assim se não tomarmos cuidado
arrancamos um coração

pesado







acordei e estava nublado
desses dias que dá pra dormir
mas que apesar de todas os fatores
você se torna insone

dia de acordar cedo pra comprar pão
receber a garoa no rosto
sentir o verão feliz ao som dos Smiths
mas não havia garoa, o vento estava seco
e os Smiths eram os Smiths

dia de olhar o reflexo das luzes
no carro molhado
mas o carro está sujo
e o dia, acinzentado

nada no dia tem graça
tudo sem cor, sem alma,
nesse dia o seu lar não é seu lar
a gravidade faz o chão ficar mais pesado
e para escorregar basta estar liso

o sol não está no lugar
mas num distante sorriso

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

v-ivo





definir um cronograma pessoal
de transformação e enriquecimento
nada material
ou de momento:
barco em direção ao tormento
para vôo astral

esculpir a mente cimento
derreter tal qual cera
chutar as formas

sê artesão de si
abuse das ferramentas à disposição
sinta necessidade da adrenalina no coração
amplie o crivo
se sinta v-ivo

se indisponha para o imaturo
e se disponha ao salto
não é preciso asa pra perceber
que a vista é mais bonita
do alto

:)

sábado, 1 de fevereiro de 2014

porta






cheguei nessa ilha,
fiz dessa barraca o meu abrigo
gostei do ar e da natureza,
e encontrei uma trilha
ainda que no vento perigo

morei meses sem destino
não me importava e não me importa
pois essa ilha é aberta
mas ainda assim nela
procuro uma porta

                   [ que me procure
                   [ que me cure

que me faça esquecer
todo o sub-consciente impuro
sem o auxílio
do Carpinejar, da Regina, ou do Cury

sem auxílio de bússola ou mapa
pois a bruma é constante
e um sinal de conquista
um sinal de luz, uma ação
espontânea
é confortante no instante


continuo
                           [ errante

diante do astro-lábio

                           [ de pé

(às vezes num inútil processo de auto-destruição)
tendo fé
que talvez a gente ainda encontre explicação

                          [ nas entrelinhas