sexta-feira, 25 de abril de 2014

enterprise





uma parede nebulosa
rosa
é a última lembrança que tenho em mente
o tempo e espaço já se foram muitas vezes
dobrados na cabeça da gente

eu era um exilado
alien no meu espaço natural
havia a necessidade
desse sonho sideral
então eu me joguei
porque não é mais legal
estar em órbita constante

eu queria saber se era possível
dobrar o tempo espaço na minha cabeça
de forma que eu continuasse distante
de uma forma que esse planeta
não me esqueça
nem mesmo por um instante
e eu queria te dar de presente
uma luneta

simplesmente estamos em órbita
atração consciente e não mais desenfreada
eu estabeleci agora estável
uma rota saudável, visível a olho nu ou lente
como a lua e o sol
em galáxias diferentes

vida enterprise
eu o sunset
e você o sunrise

terça-feira, 15 de abril de 2014

além







vocês sabem
eu adoraria viver uma vida normal
mas pra mim é algo tão valioso
seria um desperdício vivê-la assim

os meus amigos me repreendem
eles querem um bom amigo
os meus amigos querem ser meus amigos
mas eles não conseguem ir além comigo
porque eu fui além
e porra
que mancada
todos fugindo da chuva
e eu renegando um abrigo

eu poderia fazer alguém muito feliz
poderia nesse exato momento ter um cachorro
e uma casa
poderia estar formado e estar iniciando mestrado
nesse momento eu poderia estar casado
mas "eu" não existe nesse momento
então eu não fiz nada disso
nesse tormento admito o papel de mero observa-dor

a minha Terra gira ao contrário
as minhas nuvens chovem pra cima
no meu mundo eu ando voando
e vôo no chão com o coração na mão

um mundo estranho e hostil
onde admitimos a hostilidade
por isso um mundo gentil
quando às diferenças brindamos a hospitalidade

um mundo de verdade
onde todos são estranhos
e se completam pelas diferenças
sem medo da honestidade

sexta-feira, 11 de abril de 2014

o rock é a minha saída






o rock n' roll me ensinou
a cantar minhas misérias
num acorde maior
não vale a pena derramar sangue
quando há vodka por aí
e com vodka tudo fica melhor

não vale a pena gritar
quando uma guitarra pode fazê-lo por mim
não vale a pena
choramingar pelos cantos
   
                  [ como um moleque hipogloss
                  [ ou um qualquer cheira talco

se eu posso criar uma cena
num palco

o rock me ensina a viver todos os dias
me ajuda a enxergar a beleza nas distorções
                                                             [ da vida
e embora eu cante
da alma o meu amor
a minha arritmia
os nossos corações

o rock é a minha saída
de todas as situações
e talvez seja a guitarra
a maior de minhas paixões

sexta-feira, 4 de abril de 2014

braille






cerrando os olhos pra não se ver
tirar a venda dói
já vi muita gente com conjuntivite
mas daí trocam as vendas por novas
coloridas, bonitas e caras
e vão vivendo em braille os corpos
tapados

eles não são malvados
só estão buscando uma forma de se maquiar
porque nasceram sem o brinquedo
que os permitiam aprender
os detalhes de como funcionam
o treco na cabeça que me faz
                         [ e tem me feito
ser

não que eu fuja da maré
da sina de viver algum papel
de pé
e admito até que é necessário um pause
vez em nunca ou vez em quando
pra manutenção do equipamento social

ser normal é risível
resista;
não sabemos ao certo o que é
nada certo senão o pretérito
o futuro é um mérito
sob algum ponto de vista

cromossomos






assimilar o fenômeno comum
pensar como mulher
é um teste
feliz

do século XXI


só lhe falta o sentido
a sensibilidade necessária
a masculinidade é uma disfunção hereditária
como se você nao tivesse um nariz
como se comesse sem sentir o gosto
entende?

porque nascemos com a cara lisa
e são os nossos pais que vão moldando
o olhos de ver a dor
o nariz de sentir a paixão
a boca de soltar o amor
e o ouvido de absorver a verdade
daí o cuidado de não sermos pais
enquanto não formos deuses
daí a necessidade da mãe
para nos ensinar
a honestidade

como o médico que sutura o porco
antes de pegar na gente
como não entrar numa piscina antes de atravessar uns oceanos
e de humanos vamos nos tornando semi-deuses
ternos como Guevara, Frida e Elis
humanos

homens no avesso do avesso
vamos pensando nos pingos dos i's
nó em pingo d'água diário
estamos sempre por um triz
por termos só o cromossomo X

couro





eu,
ao contrário dos planetas normais
vivo em órbita de um sol de gelo
congelado pela apatia da vida
e pela experiência

e eu tô sempre andando no horizonte
fugindo
com uma tocha na mão

no entanto,
há uma hora que você se esbarra
tropeça
e não escapa

então nesse momento
eu preciso me adaptar
e meu corpo desenvolve
um couro necessário
como o das jaquetas dos rock n' rollers

e uma vez dentro dele eu reinicio o ciclo
de me esquentar