sexta-feira, 23 de maio de 2014

sinalizador






você pode perder o rumo
perder a bússola
perder a cabeça
perder o bilhete de volta da estação
perder os sapatos
e ficar sentada
mas você não pode perder
o sinalizador que está no seu bolso

quando não vir mais minha sombra
atire pro alto
que eu apareço

você pode colocar fogo no mundo
explodir o escritório
explodir meu quarto
implodir seu espírito
implodir qualquer rastro de algo que já tenha sido
mas não imploda esse chafariz que eu fiz
onde os passarinhos que fogem de sua tempestade
matam sua sede
pra depois pousar em mim

você pode inundar o banheiro
esquecer ligado o chuveiro
inundar meu olho
inundar meu jardim
você pode inundar minha cama
e ainda assim eu dormirei contigo

você pode até não fazer nada disso
você pode simplesmente
continuar sendo assim
mas continue sendo
mesmo que seja diferente

quando fizer sol
vou procurar o guarda-sol
pra que não queimemos
na exposição em demasia

quando chover
vou procurar o guarda-chuva
pra que não gripemos
no impacto da gota fria

se molharmos os pés
vou buscar sapatos novos
antes de queimarmos as mãos
te darei luvas

e assim, nos adequando
a cada situação
viveríamos a vida em vela
derretendo sempre
e queimando de novo

                [ iluminando o quarto

domingo, 18 de maio de 2014

UTI






é preciso estar
profundamente machucado
e se recuperar lentamente
para perceber a beleza na tragédia

como o Rocky
subindo as escadas da universidade
                                      [ sem estudar
como Alexandre, O Grande, ao subir
os morros da Prússia
depois de perder os melhores amigos

é preciso ir pra UTI
e assistir programas de culinária
enquanto te tiram as amígdalas
ou fazem uma redução de estômago

é isso,
uma redução de estômago

você já não processa tanto alimento
você começa a compreender os chefs franceses
com os pratinhos pequenos
decorados com um folhinha
nesse estado uma feijoada já não lhe é tão agradável
mas você coloca algumas colheres no prato
e saboreia o que um dia você se fartou

e você o faz assim porque naqueles dias
você passou mal, você exagerou
existem os que defendem
mas você sabe que é algo muito pesado
se você ingerir demais, você pode passar mal

você mastiga com mais cuidado
percebe melhor os sabores
você passa uma semana num deserto
para poder perceber melhor os aromas
que estão à sua frente
à sua volta
                       [ no seu retorno


você se torna um ser melhor

porque os banquetes àqueles
que só estariam ali pra se fartar
poderiam muito bem
ser lavagem para porcos
eles sairiam felizes
enxugando a boca com a camisa
porque eles só estão preocupados
se algo é doce ou salgado

então que suem para o sal
e que derretam-se em açúcar
-


deixemos-os
e
vamos nos sentar
numa próxima ocasião
para ter uma boa conversa
desfrutando essa maçã de sabor suave
que colhemos numa árvore
enquanto passeávamos no Éden

terça-feira, 13 de maio de 2014

marginal







eu não nasci pro script
não sou peça de teatro
pessoas vem me perguntar
o que eu faço diante de alguma situação
e a minha resposta é sempre
a solução

não há fato
o fato é produto da decantação
do ato
e embora concreto
o fato é morto
e a circunstância
é feto

a minha querida circunstância
que me evita a constância
que me permite viver
me permite sobreviver
e ver
o que existe por baixo dos panos
o significado belo da palavra 'revelar'
como por em vela a realidade
pra navegar

eu vivo em dissonante
                              [ bastante
escuto a nota de ouro
                              [ divina
eu não acredito em sina
muito embora pra mim o destino
seja um tesouro
tecido nas cordas do piano magistral
das dimensões de realidade

num requiem para as mentes paradas
eu almejo ser um equilibrista
cada vez mais marginal
enquanto me chega a idade

segunda-feira, 5 de maio de 2014

feno






eu tenho a mania de fazer um buquê
com as flores perdidas
e eu não sei o porquê
essas flores doídas
com pétalas caídas
que não sabem o que fazer
são dessas flores que eu cuido
vidas

eu não consigo ser metade
nem cara-metade
nem metade coração

eu vivo na dualidade da emoção

eu não consigo viver
como se o que eu sentisse
fosse feno
que eu rumino e engulo
como algo pequeno
tão pequeno
como se eu não engolisse

se tudo que sinto tem cheiro
se tudo que eu sinto tem cor
se o meu sexo tem amor
e o meu amor tem rosto
já que o corpo sem amor
pra mim não tem gosto

eu ainda não sei
não resolvi o mistério
se essas flores fazem disso
um jardim
ou um cemitério