quarta-feira, 18 de junho de 2014

sal





eu entrei numa obra do Picasso
um quadro cubista
de nome "conquista"

na tela duas faces estáticas
enquando um córrego de pensamentos ecoa
entre os olhos falantes
as bocas o acompanham por hora
mas o silêncio é predominante
-

você percebe o meu tapa-olho
e me pergunta se eu não tenho medo
de limitar minha visão
ou se agora eu tenho a maldição do David Bowie
ou se ainda tenho um coração

então eu te mostro
estendo a mão
e você vê um músculo intacto
salgado, diante do mar em nós
e assim ele estará pra sempre
imune às bactérias do ambiente
mas vivo e quente por dentro
quando estivermos sós

num canto, um canto
talvez você seja uma sereia;
em outros tempos desejei que você fosse vampira
pra me sugar o pescoço
e me levar pro seu lado

mas agora que sei nadar
enfie uma faca no meu peito
e me faça sangrar além do sal
me faça afundar

pra colorir de vermelho
o azul do seu cabelo
e matar de inveja os tubarões;
dando pistas do amor
escondidos nos xis
como baús em nossos corações

quarta-feira, 11 de junho de 2014

guia prático para evitar decepções (ou como sobreviver no mundo moderno)







blá blá blá
o mundo sempre foi moderno
e as pessoas sempre tiveram a mesma dificuldade
de lidar com os problemas
na flor da idade
e com o blá blá blá

fica aqui o meu maior conselho:
não crie expectativa
aí está a mais exata das ciências pra comprovar
o jornalismo é uma arte necessária
que precisamos desempenhar mesmo sem ser jornalistas

mas alto lá você que dá notícia
sem perguntar
ou você que dá notícia da vida alheia
há sempre esse que deturpa o papel da ciência
com coisa feia

desses eu quero distância
eu não quero ver
eu não quero abraçar
desses eu quero apenas a notícia
de que sobrevive
bem
e que é feliz
mesmo sem estar

a vida é um jornal
editoral
e eu não quero viver
nas páginas que profetizam
a novela da TV

segunda-feira, 9 de junho de 2014

do que as pessoas precisam




FRIENDLY ADVICE TO A LOT OF YOUNG MEN
Go to Tibet
Ride a camel.
Read the bible.
Dye your shoes blue.
Grow a beard.
Circle the world in a paper canoe.
Subscribe to The Saturday Evening Post.
Chew on the left side of your mouth only.
Marry a woman with one leg and shave with a straight razor.
And carve your name in her arm.
Brush your teeth with gasoline.
Sleep all day and climb trees at night.
Be a monk and drink buckshot and beer.
Hold your head under water and play the violin.
Do a belly dance before pink candles.
Kill your dog.
Run for mayor.
Live in a barrel.
Break your head with a hatchet.
Plant tulips in the rain.
But don’t write poetry.








estive pensando
na real necessidade humana
e se há uma distinção
entre o que é natural
e o que é autêntico

sim, tudo que é natural é idêntico
e não é preciso muita filosofia para perceber

eu sou técnico prático em computadores
entendo como funcionam
eles cuidam de muitas tarefas por si
para que possamos criar em cima
se perdêssemos tempo com essas tarefas
nada faríamos

então, na vida não haveriam tarefas assim?

a real necessidade humana
é perceber essas tarefas
e largá-las de mão
ou delegá-las a alguém
ou delegá-las a uma parte de si que não sente tanto
ou aprender a fazê-las de uma forma que não te prejudique

ou simplesmente nascer com talento
o que é um grande tormento
na mente daqueles que não o tem
                        [ não que eu o tenha
mas não me é um tormento
porque eu acho que o talento
nada mais é que gente que percebeu mais cedo
tudo isso aqui exposto

então eu percebi
que a real necessidade
é não ter tormentos
perceber os momentos
e trabalhar duro
para ter uma mente limpa
e um coração quase puro

é olhar para os lados apenas pra desviar dos perigos
é não enxergar ídolos senão um obstáculo
para seus objetivos
é se espelhar em alguém, mas não almejar ser alguém
é não querer ser/ter ninguém

é simplesmente perceber-se
e criar-se
independentemente
do que existe
é estudar seu código
e ampliá-lo

muitos dizem que as pessoas precisam
de um tapa na cara para acordar pra vida;
eu acho que a maior parte das pessoas
precisa simplesmente de uma cara
e daí jogar fora as máscaras
assumir-se
e sumir-se
e ver o mundo à sua volta
explodir-se

quinta-feira, 5 de junho de 2014

anarquia

sentir com inteligência, pensar com emoção






você me corta à metade
me dichava
me mistura e eu continuo sendo o mesmo
muito diferente depois de você
eu vejo chaves perdidas por aí
mas você me abriu na primeira tentativa
então eu fico

minhas veias mudam de rotas
meu coração tem novas artérias
retas e precisas
que se ligam diretamente ao cérebro
antes influenciado por vias tortas

você me reescreveu por completo
me tirou da era glacial
como na formação do planeta
eu ao contrário
fui vulcanizando-me
e agora resfriado
me percebo melhor

você me fez perceber-me imortal
você me evitou de ser amoral
porque o seu crime e anarquia
me conduz a uma nova
e mais tranquila
ordem social
                       [ interna


nunca houve como você ninguém
eu suspeito que nunca haverá
não me há o medo de perder-te
vez ou outra te encontrarei
só não quero me afastar
completamente

porque quando a vida não nos permite
é que acho que ela foi feita pra gente

anfíbio







eu não acho que o destino
seja a mão que escreve o texto
mas definitivamente
ele desenhou as linhas
por onde escreverei
e se antes eu estudava caligrafia
no livro de filosofia
agora faço feitiçaria
e desenho também

há muito o que viver
vou correndo como anfíbio saído do mar
da costa vislumbro a doce brisa que me toca
que me convida a sair da toca
e me provoca
a desbravar profundo
horizonte adentro
o mundo

há muito a conhecer
tenho pernas fortes
mas a minha mente ainda é mole
e embora eu aproveite a situação para moldá-la
invejo em parte essa cura dos velhos
com suas dores cristalizadas
belas
vitrais
infelizes claro,
aqueles que não toleram os deslizes;

ah, os que aceitam as imperfeições
estes enruguecem felizes
estes enriquecem-se em cicatrizes
a fim de não sangrar mais

é desta cria que quero fazer parte
a cria da arte
tenho que sentir mesmo, pra lembrar destes ventos
nos dias em que eu tiver os meus passos lentos

terça-feira, 3 de junho de 2014

brasa






eu tento entender
de cima
o clima
e não o tempo
como que num prisma
acima do céu nublado
o colorido sem tormento
vive pra demonstrar
que ele existe e não é um momento

                   [ fora as pessoas plenamente horríveis
não há pessoa plenamente horrível
o olho do furacão
o bastardo anticristo
é uma grande ilusão

em algum lugar reside
mesmo que escondido
algo incompreendido
que nós chamamos de coração
e que por vez ou outra
machucamos com uma faca
que aceitamos de bom grado

vamos nos marcando
como gado
e ao final
ficamos abatidos

e vamos procriando
a ideia do herói e do bandido
enquanto salvamos um hospital
e assaltamos um banco
lá dentro o peito em brasa e cinza
cá fora um sorriso branco