terça-feira, 29 de julho de 2014

egoísmo







vou vivendo como
se o passado fosse rascunho
do presente ou do futuro
eu, mouribundo escritor
apontando pros cantos
com a minha pena na mão
digo, sem pena

são 12:00 dessa nublada cidade
quando a mim se apresenta
uma distante face
perdida no passado
olho nos olhos dela
e me vejo

porém não era o mesmo
que vejo quando me encontro com o espelho
dessa vez, havia outro ali
e comecei a contar as rugas
novesfora, 2 sobram
sei que sou eu há alguns anos

e começo a dialogar não com ela
mas comigo
o que fazia eu ali diante de mim mesmo
após tantos anos?

eis que responde o mancebo:

a ti foi dada a dádiva
de retirar o véu do futuro
soprar a poeira do passado
                        [ dentre outras coisas
você tem controle daquilo que vê
daquilo que sente, daquilo que faz
você manuseia as engrenagens do destino
e eu te dei esse presente

e os lábios se moviam, ela falava comigo
mas eu não conseguia me desprender desse eu amigo
e pensei comigo mesmo se não era egoísmo;
bom, seria se fosse em mim,
mas este eu habita nela:
que moça egoísta!

despedidas feitas,
deixo a cargo dele sanar as dúvidas
nunca fui de confiar muito nos outros
mas confio nos outros que existem em mim

quinta-feira, 24 de julho de 2014

zumbi






 já era
fui beijado pela morte
e poucos são esses
acredito que tive sorte
se "o que não te mata te fortalece"
me sinto forte

as pessoas vivas
com tanto sangue a escorrer
mal sabem que na juventude
há muito sangue a se perder

que a gente fica um pouco pálido
e frio
no começo achamos tudo um tanto vazio
e então começamos a ocupar
como zumbis inteligentes
com QIs fantasmagóricos
vivendo o dia de hoje
pensando num amanhã escatológico

nós estendemos a brevidade da vida
com uma vida bem vivida
porque ao invés de perder
nós só temos a ganhar
e de cérebro em cérebro
moldamos um coração
bem convicente

domingo, 13 de julho de 2014

não ligo







idade média, tudo era fogo
pouco motivo e já se queimava;
pra percebemos depois
que dos sentimentos medievais
pouco levamos além das cinzas

na revolução industrial já não há tanto calor
as cinzas sobem ao ar
e agora em neblina te dificultam de respirar
de enxergar o que há à frente
daí: você lâmpada

e as coisas se clareiam
a luz, chamada de artificial
me parece bem natural
se eu entender que sou eu que ligo;

nem todos os pontos são claros
e de poste em poste
você fica insatisfeito
e decide não mais ligar

logo entende que não ligar é um grande passo
o seu olho se acostuma com a neblina
e o seu pulmão cria resistência suficiente
pra correr sem cansar
o ambiente bucólico é até aconchegante agora
dois casacos no peito e você está pronto pra guerra

é quando você percebe finalmente a razão
dos envolvidos com arte
e sua reclusão:

de 'não ligo' em 'não ligo'
você apaga;
acende uma vela pra disfarçar
como num sinal poético
você deflagra

                  [   que não num curto espaço de tempo

com algum curto circuito
quem sabe você até pode queimar

sem juras, sem juros,
eu não ligo, ninguém liga;
menos calor, mais seguro
e mais puro
no escuro

quarta-feira, 9 de julho de 2014

ofício






a manhã fria me bate
me acorda no grito
eu a imito
do jeito que dá
do jeito que sou
e daí me permito
esquentar um pouco
com o café como desculpa

a mente inquieta
a solitude acompanhada
na solitude do meu velho
e umas risadas tímidas
'desjejuam' o amor contido
por anos e anos
nos nossos planos

eu não estou livre da maldição
é mal de família
não ser de bem
             [ no bom sentido

fico pensando se sou como eles
se guardo aquele cansaço no olhar aqui adormecido
nele tão latente,
e vívido como se fosse criança;
então num flash o enxergo na infância
talvez eu como seu pai
e vamos invertendo os papéis
evitando os assuntos cruéis
e falando as verdades numa aula mútua
- tão mais importantes são nossos laços
                                                       [ fiéis

nós compartilhamos o sangue
definitivamente
e a dor que corre em suas veias
me faz revirar ao dormir
ah, se eu pudesse
enfiar-me em seu corpo
pra convidá-la a sair

entendo agora sua função
quando enxergo o seu papel
escrito no tempo à aquarela de lágrimas
colorido nos sorrisos
das palavras descuidadas
e dos erros precisos
desbravando um caminho novo
na história, expandindo a memória
ainda que esse exemplo
seja um sacrifício

sem dúvidas
ser mãe é uma dádiva
                     [ ou pena

ser pai é um ofício
difícil

segunda-feira, 7 de julho de 2014

glimpse






num piscar de olhos
andando durante o dia
mudo como se as coisas fossem tão simples
como se não tivessem valor
eu não quero mais sentir
e quando penso que não viveria sem algo
pisco os olhos e voilà, já não me faz tão sentido

mas aí pisco novamente
e vejo tudo de novo em mim
eu ainda não decidi
se isso me sufoca ou me liberta
mas o fato é que é mais tranquilo
de viver
assim

tão difícil quanto o curso de medicina
na vida você aprende a conter hemorragias
e aí você entende o porquê de médico
não sentir medo de sangue

já não sinto passado
já não sinto futuro
o presente manifesta-se como poste
na madrugada da minha vida
onde o restante está escuro

o peso que antes eu carregava
agora está no chão
mas me responda, asfalto
levou também meu coração?

será esse desconforto necessário
para o sentimento?
dói tanto assim no Chico Buarque?
seria ele hoje como eu,
um simulacro da realidade;
sargento aposentado de guerra
que queria ter uma bomba?

código morse
já não sinto, eu sinto muito
olho a olho criptografado
numa senha confiada à convivência
seguros, conectados
seguimos atados
sem esperança
mas abraçados