terça-feira, 4 de novembro de 2014

mofo





eu abro um dicionário
pra buscar seu significado
e na minha biblioteca
busco o seu livro pra abrir;
pra em um momento de silêncio estudá-lo
e seu assunto dominar
                                     [ pra não querer dominá-la nunca
eu passo as páginas com cuidado
e tento não estragar

de capa dura e bom estado
best-seller de um autor consagrado
não ganharia um Pulitzer, aliás
um Nobel, uma vaga na ABL

as pessoas já não compram os livros
pelas palavras, pelas ideias
mas pelo cheiro de novo
pela ilustração no verso
a arte na literatura
nessas grandes livrarias
é apenas um grande comércio

e pensar nesses velhos, entediados
que não conseguem acordar num domingo
e ir na banca sem pegar nenhum;
patético.

eu me recuso e vou ao sebo
buscar entre os empoeirados
um Neruda apaixonado
ou um Bukowski amargurado
os ensinamentos melhores eu recebo
e o resto é apenas diversão

estou são
desses livros coloridos
e das páginas em couché;
de agora em diante
jornal, revista, eu não quero mais
nas páginas vazias, nada de propaganda
e no mofo de belos versos
paz

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