segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

dos poucos que viram você aqui



foals in winter coats
white girls of the north
fire past one
five and one

they are the fabled lambs
of sunday ham
the ancient snow


a foto mais bonita que eu fiz
a naturalidade rara que me fazia falta
que enchia meu corpo de nostalgia
e como feitiçaria nascia ali
diante dos olhares desatentos dos plebeus;
você reinava

o que se passa nesse coração tão denso
pouco se sabe e se quer saber
é uma câmara tão bonita
não há vontade de explorar
eu, nos meus reinos cibernéticos
vejo uma interface friamente arquitetada
como vinda de Winterfell

uma frieza que me conforta:
tenho o olho bastante
para ver sua majestade treva

um olho doce em pesado entorno
maquiagem que intimida
como um cartão de visita
"cuidado ao entrar aqui"

eu não quero mergulhar em ti
eu quero como os turistas de Ibicoara
perceber a gruta azul que se esconde na sua íris
com um tubo minúsculo me ligando a realidade
é algo bonito
se pensarmos no cordão umbilical
(nós, e o mundo)
você aqui

me mostrando a cada encontro
que a casualidade é apenas uma boa desculpa
pra um destino sarcástico, irônico e mentiroso
que nos tem em suas mãos
e que inexplicavelmente sabe minhas intenções
de parar nas suas;
que embora sua demora,
colabora

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

preço






eu acordo com o peito afogado
uma agonia que já me é comum
consequente do alvorecer;
é como se eu nascesse a cada dia.

há um preço a se pagar
por viver sem certezas
e o meu preço é esse;
os sonhos são hostis
pessimistas e violentos
e eu preciso apalpar as paredes
pra perceber que a realidade não é tão flexível
que as coisas estarão aqui amanhã

cada dia nasce como uma vitória
e eu me digladio à noite
com o meu futuro

vive dentro de mim a galinha dos ovos de ouro
padecendo de inanição
e é por esse papo que temos à noite
que o dela se enche
e o meu amanhece vazio

mas vamos lá,
um café e estou novo
tudo isso dura dez minutos
que é o tempo de transição
da realidade alternativa;
nada de ruim realmente sobrevive
a um bom café

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

apollo 1






a forma como você
displicentemente desloca o queixo
enquanto vira o rosto para a direção do meu
para finalmente olhar diretamente em meu olho
denuncia facilmente a natureza de sua existência
fielmente descreve a cor da sua alma
você é de aquário

como um sopro do destino
um recado do vento solar
que se manifesta
no discreto brilho amarelo
que o seu cabelo ganha
quando em contato ao sol

que se manifesta no silêncio ensurdecedor do seu sorriso
e na sucintez de tuas palavras
na tua comunicação clínica
                     [ no bisturi de seu vocabulário
no canto da sua fala simples
:bem-te-vi

a beleza mais sincera que me apareceu neste ano
de tantas super luas, sangrentas luas
é ironia da vida
o céu rindo e descrevendo os acontecimentos
aos quais fui sentenciado

uma garrafa cápsula lunar
com uma mensagem em braille
pra você ler de olhos fechados:

i want to sail

domingo, 20 de setembro de 2015

jovens e bonitos





é pra isso que devemos lutar
paz interna, paz de espírito
pacientes desse eterno berço azul
o melhor médico; homeopático
simpático naturalmente -
nos sorri todos os dias com esse céu azul

somos tão jovens
para transpirar esse suor tão azedo
tão jovens pra chorar, pra lamentar
quaisquer que sejam desventuras;
temos que aproveitar cada gota dessa existência
enquanto somos jovens e bonitos
enquanto o enquanto não é quanto
enquanto não acordamos e damos de cara com o espanto
pra não colocarmos a culpa do destino no santo
pra termos orgulho da culpa
da culpa de não sermos velhos e feios
enquanto somos jovens e bonitos

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

janela





às vezes se está tão fechado
que o mofo toma conta
você desconta
em tudo que está do lado de dentro

você esquece uma janela aberta
e pega um resfriado
evita o vento
e fecha as janelas também
para evitar o mau-olhado

vive de emplastro
como o Brás Cubas
morre e esquece que viveu
morre e não sabe
que as vizinhas que fofocam
também já morreram
e não toma nenhuma providência
pra não virar vizinha também

até que um evento incompreendido
te acorda pra vida
e é como se você rejuvenescesse 10 anos
é como se sua mãe invadisse a casa
balançando a poeira e levantando o sofá
botando os escorpiões pra correr
te obrigando a se cuidar
e te obrigando a viver

por mais eventos incompreendidos
por mais acidentes de percurso
eu não me incomodo com os desvios de rota
no fim
o caminho da viagem é o que importa

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

absolutamente nada






vamos parar de brincar
de esconde esconde
você me mostra onde
estão ocultos esses desejos secretos;
logo eu que sempre tive segredos tão discretos
de leve assim pra não distoar

e daí você para de fingir
que não liga pro que eu faço
que não liga pra mim e cancela
que não cancela eventos pensando em mim

e daí você para de beijar
as bocas dos meus interesses
para de me perseguir fazendo festa
cometendo crimes na minha frente
que para mim, hoje
mais parecem roubar doce de criança

vê se se toca
                        [ mais
vê se percebe o que é mais justo
e segue de uma vez uma vida simples
sem ligar muito pro que eu faço
se você disfarça eu também disfarço
e aí a gente finge que se ama e vive em paz

e entende de uma vez por todas
que absolutamente nada que fizer
pode me parar
de ser você

absolutamente nada
que você fizer pode me parar
e se esse é o meu crime
eu aceito de bom grado a pena
de não viver preso

absolutamente nada
vai me livrar dessa ideia
de que tudo tem que ser justo
e nem a mais absoluta cigana oblíqua
vai me enganar

eu só não quero ter que ligar
(já não ligo pra nada na vida e ter que ligar pra toda essa coisa)
gastar processamento à toa
desperdiçar neurônios que bem poderiam estar me deixando rico
em pensamentos tolos

                        [ do you wonder where she is this afternoon?

já que é pra ser assim...
eu aceito a pena de ser tirado de otário
de homem que não dá valor a nada
de ter fama de vacilão
pra guardar como um soldado
esse tesouro aqui no peito
sem corrente nem chave
pra qualquer um que sorrir sinceridade
pegar de mão cheia
no meu coração

eu vejo em cada um
um professor e um aprendiz
é por isso que estamos sempre por um triz
do beijo e do ódio
é por isso que você é tão boa atriz

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

tesouro





essa história é antiga
eu já li e reli e reli e reli
já sinto o tédio no "oi"
tão previsível quanto a chuva e seu cheiro
tão previsível quanto o sol depois da chuva
e é essa mesma história de janeiro a janeiro
eu a banho maria
à escolha do freguês
eu nunca por inteiro

não tem previsão do tempo
não há sábado de praia
não há tempo pra arrumação
eu sou o filho bastardo do pai ocupado
da guarda conjunta nos fins de semana

e eu não vejo a hora de crescer
de morar sozinho
e ter a possibilidade do meu hackerspace
do meu laboratório pessoal
do meu espaço justo e implacável
onde eu me sinta vingado
e bandido
um lugar onde eu seja minha primeira opção
sincero comigo mesmo
um lugar onde eu finalmente aprenda
a ser vil e vazio

o meu berço da noite
com acessórios de guerrilha
um pincel, uma solda, um lápis
um violão
com um público seleto
que pisca suavemente
e analisa atenciosamente
a minha canção

onde eu possa repetir os erros
aos quais fui acometido
um lugar para as visitas dos restos amorosos alheios
o meu verdadeiro tesouro
escondido

segunda-feira, 15 de junho de 2015

catarse





ausentar-se de vaidade
ausentar-se de mentira
ausentar-se de medo
ausentar-se de segredo

(es)clarecer
desVENDAr-se
des-vender-se
                        [ por tão pouco
libertar-se
catar-se catarse

tudo acontece por um propósito
mesmo que inexplicável a princípio
e daqui apenas levamos
os laços
mesmo que estes sejam nossos
precipícios

laços que embalam
o maior presente a nós ofertado
o nosso próprio livro de histórias
escrito a sangue e a mão
em linhas tortuosas;
talvez um livro de desenho
com letras em múltiplos tons
uma poesia concreta
com dicas entrelinhas
                                     [ discretas
de que Deus talvez seja Carlos Drummond

e eu não verei mais todos os montinhos
que nos separam
como a Cordilheira dos Andes
talvez eu não seja mesmo todo esse J. Pinto Fernandes
talvez eu seja só muito aventureiro
algo como um monge budista
meio Crocodilo Dundee

sábado, 6 de junho de 2015

manifestação







tenho que lhe confessar que ando meio frio
com apreço pelo coração vazio
e toda manifestação de afeto
tem me feito olhar o mundo de costas
mas como é engraçado perceber um sorriso meu
vindo dessa sua
                           [ como um protesto, uma
manifestação
you fly back up inside of me
like a Phoenix

quinta-feira, 21 de maio de 2015

antártico




há algo oculto
na natureza humana
sobre esses processos de mudança interior
sobre a origem da nossa vontade
e eu tento não acreditar que estamos à deriva
por pura vaidade

já me sinto bem assim
antártico
achei que fosse morrer de frio
mas a vida está mais simples
e tudo que era simples
agora tem mais sabor
até mesmo o que é vazio
                                          [ dispenso

nunca estive tão assim
talvez um pouco, hora ou outra
há algum tempo atrás
mas é como se houvesse aqui
um termômetro, um relógio
um alarme de incêndio
que toca a cada hora de mudar
é como se não houvesse aqui
nenhuma necessidade
senão andar
algo meio difícil de se fazer
nos furacões em que me meto
que tiram meus objetivos de perto
ou que me afastam de tudo aquilo
que eu julgava certo

há uma brisa aqui
no topo da minha consciência
que me ajuda a pensar melhor
e a definir caminho;
                        [ mesmo que breve
que me ajuda a aproveitar melhor
as companhias, sozinho
e a lidar melhor com qualquer ausência
de uma forma muito leve

quinta-feira, 14 de maio de 2015

plano infalível

Deixai que os fatos sejam fatos naturalmente
Sem que sejam forjados para acontecer
Deixai que os olhos vejam os pequenos detalhes
Lentamente deixai que as coisas que lhe circundam
Estejam sempre inertes como móveis
Inofensivos para lhe servir quando for
Preciso e nunca lhe causar danos
Sejam eles morais físicos ou psicológicos






eu sei ou fico sabendo
de muitas histórias
de meus pais, tios, avós
todos eles ótimas pessoas
mas todos bastante complicados
me olham com esses olhares repreensivos
ditando os mesmos ditados
sobre uma vida correta e retilínia
sobre os perigos da modernidade
sobre as mazelas dos vícios
e os vícios da idade

e todos estão sentados em seus sofás
assistindo as vidas alheias
ou lendo, ou falando delas
e todos girando sobre o mesmo assunto
os mesmos erros
quase em toda a sua maioria
por "amor"

foi por amor que nenhum deles é doutor
e talvez seja por amor que meu pai não é artista
é por amor que o vizinho não é capa de revista
e é por amor também que o meu tio não tem nenhum amor

no fim das contas,
é por amor que todos os meus parentes pagam contas

eu não deixarei Elis morrer na cruz por nós
todos os astros do rock
que se foram aos 27 anos
eu infelizmente os deixarei a sós

dizem que é sina de aquário
mas pra mim é medo

medo de ter que lamentar acordar cedo
medo de ser chamado de otário
medo de ser esquecido com um bolo na mão
nos meus dias restantes de aniversário

e se lembrado for
espero que não seja apenas nesses dias
com um nome no topo;
eu vou vingar todo antecessor
que teve uma vida desprezível
vou me abster do que mais valioso eles tiveram
que foi esse plano infalível
do amor

vou matar e morrer por mim mesmo
pela minha liberdade
pela minha sanidade
mental e psicológica
vou me afastar de tudo que me faz mal
ou que não me satisfaz
de um ponto de vista justo e racional
vou tentar conter meus pontos de vista emocionais

vou tomar tudo em doses homeopáticas
pra evitar esses futuros patológicos
de casamentos monumentais
e luas-de-mel trágicas

segunda-feira, 11 de maio de 2015

aço







tô sustentado por correntes de aço
por pedras rolantes, por rock n' roll
pela juventude na sua mais nítida estampa
na visceralidade mais escrota da existência

era o que faltava para a rendez-vous

agora aterrissei
finalmente aterrissei
como a borboleta em forma final
com asas de aço
com pernas de aço
com olhos de águia
o sapo sem medo de sal
o sapo com pernas de aço

eu cruzei a ponte e a demagogia acabou
todas as minhas poesias sobre aquilo que eu almejava ser
todas elas estão aqui ceiando comigo
bebendo no bar que abri dentro de mim

é o começo da nova era
o fim do planeta dos macacos

apesar de que não mora mais em mim
a gentileza do Quintana;
também não habitam mais em mim
esses instintos mais sacanas
dos indivíduos babuínos;

deixo-os com a sinceridade
e agressividade
dos meus sentimentos genuínos
meus verdadeiros aliados...
afiados
cortam sem medo
os galhos estragados
com aço;

eles passarinho
eu passo

sábado, 2 de maio de 2015

o rio





eu desisti do rio
sou um falido sentimental
eu tentei salvar
capturar o fio da meada
mas eu esgotei meus recursos emocionais

eu fui o peixe que sai do mar e vai pro rio
e fica sem sal
vazio
e vai do rio pro cano de esgoto
e fica sujo, inútil
e vai pra boca do mar de novo
na esperança de se lavar

e cada vez que encontro o rio
cada vez que dou de cara
com a rainha dessas águas
o meu corpo se invade
de uma apatia insólita
de uma saudade insuportável
           - e ainda assim apática
que eu não quero mais sentir

apática no que tange aos meus limites
todos eles atingidos
todas as fronteiras quebradas
hoje posso bater no peito (?)
e dizer que estou tranquilo
solitário nas entranhas do meu espírito
de olho bem aberto
dormindo de olho bem aberto
pra acompanhar lentamente
a morte desse pedaço de mim

a minha pele pede sal
eu, peixe de água salgada
vejo
que as lágrimas de outrora
hoje dentro de mim
se resumem apenas
em pura água salgada;
é nela que eu nado
nela que me criei
o rio nunca foi mais do que senão
diversão

nadando disfarçado
salinizando sem salgar pesado
pra sair do mar vezenquando
tirando onda de marujo
chegar no rio de terninho sujo
e no esgoto de beca
olhando de cima
desfilando em pele e carne
sem espinhas
como sou

quarta-feira, 22 de abril de 2015

cotidiano






a vida se faz do micro pro macro
do embrião ao nascituro
              [ do tijolo ao muro
do bom dia ao como vai
dos pequenos para os grandes momentos

apesar de tudo que as novelas
andam dizendo por aí
não são os gran finales
que trazem luz ao show
eles nada mais são que consequência
do enredo

são os torrões de açúcar do dia-a-dia
que vão torrando nosso azedo
como aqueles olhos que te acordam
ao sentir tua falta logo cedo
que te fazem esquecer o café
e te isolam
do mundo

são os pequenos afagos do cotidiano
que vão criando
                               [ que vão s+o+m+a+n+d+o

o que é bonito
e profundo

mas se eles não vem
tudo vai
               c
               a
               i
               n
               d
               o
               tudo vai sub
                                     traindo

domingo, 5 de abril de 2015

mur(r)o






 eu vi a face feia da vida
             [ eu quis a face feia da vida
e eu aprendi a conviver com ela
como o cão andarilho da trilha
que vive com o carrapato nas costas
nem dói mais
fazem parte de mim
as espinhas da mentira

de saber dos seres sozinhos
de tomar os mesmos caminhos
da faculdade pro trabalho e casa
não experimentar aquele
onde o bueiro está solto
mas tem a casa mais bonita do bairro
de fachada não tão majestosa
porém de aconchegante tapete

são todas escolhas que eu mesmo fiz
e que um outro eu ri de mim mesmo
pra aprender na marra as consequências
pra relevar as eloquências
    [ revelar
da alma e do corpo
pra gritar menos
pra ser menos
e assim poder ser mais
aos poucos

às vezes acho que tô verde
em outras me acho maduro;
e antes que eu fique duro
que baste da vida este murro
pra vida à calçada pular
pululante as alegrias:
sair de cima do muro

sábado, 7 de março de 2015

gude

afterward, everything out of the bounds
we see life can't be measured in pounds
what comes around
definately goes around







talvez tenham sido
os primeiros quebra-cabeças
feitos com pedras em formato rudimentar
com coisas do nosso cotidiano
à nossa imagem e semelhança
-

dá um trabalho danado
ter que lapidar todas essas pedras
(as nossas pedras)
pra ficarem brilhantes
pra gente admirar, ter orgulho em usar

e quando a gente finalmente consegue
vê que todo mundo tem delas
umas mais lapidadas que as outras
umas turquesas opacas
quartzo brilhante
todo o contrário de ti
ou uma parte somente

brincando da vida, gude
com as pedras que infelizmente
ora ou outra
não rolam
enfim

o que nos resta afinal
senão buscar nadar por aí
e ver as pedras da costa
que uma vez no mar
não voltam