quinta-feira, 21 de maio de 2015

antártico




há algo oculto
na natureza humana
sobre esses processos de mudança interior
sobre a origem da nossa vontade
e eu tento não acreditar que estamos à deriva
por pura vaidade

já me sinto bem assim
antártico
achei que fosse morrer de frio
mas a vida está mais simples
e tudo que era simples
agora tem mais sabor
até mesmo o que é vazio
                                          [ dispenso

nunca estive tão assim
talvez um pouco, hora ou outra
há algum tempo atrás
mas é como se houvesse aqui
um termômetro, um relógio
um alarme de incêndio
que toca a cada hora de mudar
é como se não houvesse aqui
nenhuma necessidade
senão andar
algo meio difícil de se fazer
nos furacões em que me meto
que tiram meus objetivos de perto
ou que me afastam de tudo aquilo
que eu julgava certo

há uma brisa aqui
no topo da minha consciência
que me ajuda a pensar melhor
e a definir caminho;
                        [ mesmo que breve
que me ajuda a aproveitar melhor
as companhias, sozinho
e a lidar melhor com qualquer ausência
de uma forma muito leve

quinta-feira, 14 de maio de 2015

plano infalível

Deixai que os fatos sejam fatos naturalmente
Sem que sejam forjados para acontecer
Deixai que os olhos vejam os pequenos detalhes
Lentamente deixai que as coisas que lhe circundam
Estejam sempre inertes como móveis
Inofensivos para lhe servir quando for
Preciso e nunca lhe causar danos
Sejam eles morais físicos ou psicológicos






eu sei ou fico sabendo
de muitas histórias
de meus pais, tios, avós
todos eles ótimas pessoas
mas todos bastante complicados
me olham com esses olhares repreensivos
ditando os mesmos ditados
sobre uma vida correta e retilínia
sobre os perigos da modernidade
sobre as mazelas dos vícios
e os vícios da idade

e todos estão sentados em seus sofás
assistindo as vidas alheias
ou lendo, ou falando delas
e todos girando sobre o mesmo assunto
os mesmos erros
quase em toda a sua maioria
por "amor"

foi por amor que nenhum deles é doutor
e talvez seja por amor que meu pai não é artista
é por amor que o vizinho não é capa de revista
e é por amor também que o meu tio não tem nenhum amor

no fim das contas,
é por amor que todos os meus parentes pagam contas

eu não deixarei Elis morrer na cruz por nós
todos os astros do rock
que se foram aos 27 anos
eu infelizmente os deixarei a sós

dizem que é sina de aquário
mas pra mim é medo

medo de ter que lamentar acordar cedo
medo de ser chamado de otário
medo de ser esquecido com um bolo na mão
nos meus dias restantes de aniversário

e se lembrado for
espero que não seja apenas nesses dias
com um nome no topo;
eu vou vingar todo antecessor
que teve uma vida desprezível
vou me abster do que mais valioso eles tiveram
que foi esse plano infalível
do amor

vou matar e morrer por mim mesmo
pela minha liberdade
pela minha sanidade
mental e psicológica
vou me afastar de tudo que me faz mal
ou que não me satisfaz
de um ponto de vista justo e racional
vou tentar conter meus pontos de vista emocionais

vou tomar tudo em doses homeopáticas
pra evitar esses futuros patológicos
de casamentos monumentais
e luas-de-mel trágicas

segunda-feira, 11 de maio de 2015

aço







tô sustentado por correntes de aço
por pedras rolantes, por rock n' roll
pela juventude na sua mais nítida estampa
na visceralidade mais escrota da existência

era o que faltava para a rendez-vous

agora aterrissei
finalmente aterrissei
como a borboleta em forma final
com asas de aço
com pernas de aço
com olhos de águia
o sapo sem medo de sal
o sapo com pernas de aço

eu cruzei a ponte e a demagogia acabou
todas as minhas poesias sobre aquilo que eu almejava ser
todas elas estão aqui ceiando comigo
bebendo no bar que abri dentro de mim

é o começo da nova era
o fim do planeta dos macacos

apesar de que não mora mais em mim
a gentileza do Quintana;
também não habitam mais em mim
esses instintos mais sacanas
dos indivíduos babuínos;

deixo-os com a sinceridade
e agressividade
dos meus sentimentos genuínos
meus verdadeiros aliados...
afiados
cortam sem medo
os galhos estragados
com aço;

eles passarinho
eu passo

sábado, 2 de maio de 2015

o rio





eu desisti do rio
sou um falido sentimental
eu tentei salvar
capturar o fio da meada
mas eu esgotei meus recursos emocionais

eu fui o peixe que sai do mar e vai pro rio
e fica sem sal
vazio
e vai do rio pro cano de esgoto
e fica sujo, inútil
e vai pra boca do mar de novo
na esperança de se lavar

e cada vez que encontro o rio
cada vez que dou de cara
com a rainha dessas águas
o meu corpo se invade
de uma apatia insólita
de uma saudade insuportável
           - e ainda assim apática
que eu não quero mais sentir

apática no que tange aos meus limites
todos eles atingidos
todas as fronteiras quebradas
hoje posso bater no peito (?)
e dizer que estou tranquilo
solitário nas entranhas do meu espírito
de olho bem aberto
dormindo de olho bem aberto
pra acompanhar lentamente
a morte desse pedaço de mim

a minha pele pede sal
eu, peixe de água salgada
vejo
que as lágrimas de outrora
hoje dentro de mim
se resumem apenas
em pura água salgada;
é nela que eu nado
nela que me criei
o rio nunca foi mais do que senão
diversão

nadando disfarçado
salinizando sem salgar pesado
pra sair do mar vezenquando
tirando onda de marujo
chegar no rio de terninho sujo
e no esgoto de beca
olhando de cima
desfilando em pele e carne
sem espinhas
como sou