sábado, 2 de maio de 2015

o rio





eu desisti do rio
sou um falido sentimental
eu tentei salvar
capturar o fio da meada
mas eu esgotei meus recursos emocionais

eu fui o peixe que sai do mar e vai pro rio
e fica sem sal
vazio
e vai do rio pro cano de esgoto
e fica sujo, inútil
e vai pra boca do mar de novo
na esperança de se lavar

e cada vez que encontro o rio
cada vez que dou de cara
com a rainha dessas águas
o meu corpo se invade
de uma apatia insólita
de uma saudade insuportável
           - e ainda assim apática
que eu não quero mais sentir

apática no que tange aos meus limites
todos eles atingidos
todas as fronteiras quebradas
hoje posso bater no peito (?)
e dizer que estou tranquilo
solitário nas entranhas do meu espírito
de olho bem aberto
dormindo de olho bem aberto
pra acompanhar lentamente
a morte desse pedaço de mim

a minha pele pede sal
eu, peixe de água salgada
vejo
que as lágrimas de outrora
hoje dentro de mim
se resumem apenas
em pura água salgada;
é nela que eu nado
nela que me criei
o rio nunca foi mais do que senão
diversão

nadando disfarçado
salinizando sem salgar pesado
pra sair do mar vezenquando
tirando onda de marujo
chegar no rio de terninho sujo
e no esgoto de beca
olhando de cima
desfilando em pele e carne
sem espinhas
como sou

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