quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

queijo suíço







a quem eu quero enganar?
sou o mesmo de sempre
a mesma cara lavada
tampouco maduro, al dente;
eu sou o mesmo cara errante
e vazio
e dentro do meu vazio há um espaço gigante
um espaço enorme, um espaço sideral
onde habitam livros em estantes
e um deserto de sal
uns filmes que poucos gostam
estranhos e bossais
ideias gigantes crescem em mim
                      [ bonsais


alguém me fez lembrar
uma parte de mim que achei que tivesse morrido
que tinha ficado lá atrás
um pedaço de mim que eu achava bonito
                               [ um pedaço esquecido
mas que infelizmente não me cabe mais

com todo esse vazio
e não me cabe mais
pois hoje eu sou imenso
e vejo o fundo das coisas
apenas da superfície
hoje eu evito ao máximo
ser desnecessariamente denso
antes de sentir, eu penso
e não acho que sinto menos por isso
é que meu sentimento vai e vem
flui por dentro de mim
como se eu fosse um queijo suíço

terça-feira, 8 de novembro de 2016

ironia

sempre é dia de ironia no meu coração





meu pai me contou uma vez
uma história da sua juventude
e antigamente quando criança, era tão distante
depois achei irrelevante
mas hoje, a canção da Elis me esmurra quando escuto

eu sei que existe algueḿ por aí
hora ou outra me deparo assim
graus de dificuldade singulares
cada uma à sua maneira
continuo com a mesma habilidade
de dizer verdades falando besteira
mas no fim, estou sempre só
com os meus amigos, mas na intimidade, só

a minha vida se apossou de uma irônica apatia
dou risada de tudo, nada mais me entristece
a tristeza virou rotina, logo não era mais tristeza
logo era realidade, que entrou em mim como um virus
um oitavo passageiro na minha nave
a apatia tem sido companheira fiel
nesses tempos difíceis

ainda trago calor, tenho certeza
mas me comporto como uma estrela vermelha anã
com um calor muito sutil
um brilho muito sutil
algo pra se ver de perto
pra quem está em órbita

e eu tenho medo
de arrastar alguém com a minha gravidade
as coisas comigo sempre fazem tanto sentido
tanta intensidade
cada pequeno momento é uma eternidade
mas eu não sei se é justo
trazer a alegria a alguém
para depois partir;
a realidade pra mim e só.
apenas para mim a efemeridade.
para a moça que em mim aposta
o carinho breve, o adeus doído
enfim, a sua liberdade

segunda-feira, 2 de maio de 2016

ciência





hoje li que não é o medo o maior inimigo da mente
mas sim a apatia
e eu confesso, é o que sinto ao abrir a porta
todo dia
pessoas com o mesmo sorriso de sempre
piadas preconceituosas
desfocando com as imperfeições alheias
suas vidas tortuosas

e quando não é isso
é a salvação do fim de semana
a rotina que engana

o sex, drugs and rock n' roll
já não me preenche
pouco a pouco
tudo me enche
talvez seja eu ranzinza
(ou o tempo cinza)
como se eu tivesse queimado
toda a gasolina no verão;

você apareceu como um dia ensolarado e frio
me salvando do vazio, sem aquecer demais
o calor que bate na pele às 7 da manhã
vindo do sol recente num cais
uma paz desconcertante
que me faz pensar bastante:
eu percebo os sinais

de que você está me conhecendo
e eu espero estar certo
sobre o seu plano;
que você me quer por perto
não do tipo que sufoca
mas de um tipo esperto, aquariano

eu não espero nada mais que sua cor
na minha semana
assumo um estado de paciência
como quem espera o nascer da flor
tento me lavar de qualquer carência
pra contribuir com essa experiência
eu acredito que nós dois tratamos o sentir
como uma ciência

eu não preciso que você se explique
de alguma forma eu te escuto;
um sinal às vezes faz bem
e esse é o melhor susto;
tudo que eu espero
é que aquela tarde se estique
e o que existe multiplique;
que a dúvida e a incerteza passem
e você fique

segunda-feira, 18 de abril de 2016

troco





quando acontece um acidente na linha
eles colocam uma placa de aviso;
da mesma forma eu uso um brinco na orelha
e é por esse motivo que eu ainda não fiz uma tattoo.
diferentemente das que vem no chiclete
eu não vou poder trocá-las de manhã
porque esse é o meu vício:
eu troco demais
e acabo nu

e reclamo se me sobra o troco
se não pago as prestrações da casa própria
da segurança de um lar
e nesse caso
              xxos
é mais do que o sonho americano
é a beleza americana posta à cama todos os dias

eu não vou jogar a toalha

nós estamos jogando um jogo
eu e você
eu sei disso, eu vejo no seu olho
da forma como você me olha rapidamente
pra ver se estou me machucando
da forma como você acha correto isso vindo das suas mãos

nós estamos jogando um jogo
e eu vejo o seu jogo
eu vejo quando você afina os olhos
pra checar se ainda estou ali
nós temos o terceiro olho
e estamos brincando pra ver qual o melhor

é isso ou o tédio
é isso ou a mesma linearidade lá fora
o calendário, onde novesfora
os dias vão embora e não há tempo pra você

esses dias disse a Lucas
que gosto de lidar com níveis massivos de complexidade
é por isso que estudo para mudar de hemisfério
é por isso que não me explico, deixo-me em mistério
é por isso que uso Linux
e é por isso que não uso você
é por isso que no momento
somente você eu levo a sério

terça-feira, 5 de abril de 2016

parabólica





sempre houveram os amaldiçoados
os estranhos, calados
ou falantes diante da seiva alcoólica
com ideias mirabolantes
mentes parabólicas
captando sinais do espaço sideral

os queimados em fogueira
por serem "irreverentes"
por terem o coração quente e a alma fria
os alcoviteiros, amantes da patifaria
os grandes e livres de mente

como o Donatello, o Michelangelo
que vivem nos esgotos da humanidade
que tem suas obras vendidas
nas ilustres rodas de intelectualidade;
eles sabiam a verdade da porra toda

todos estes amaldiçoados
tem o terceiro olho
o olho sabido, olho de peixe
brilhante mesmo após morto;
é o que permite que eles nadem e enxerguem
no mar de escuridão em que estamos mergulhados
como um Tietê das ideias
onde estão todos os outros
subalternos do senso-comum
todos compreendidos, modelos de conduta
já nascem com os dedos eretos
para apontar os "filhos da puta"

aqueles que foram ao Éden
e comeram a fruta
e hoje vivem livremente entre os humanos de venda
com uma mão estendida para libertar qualquer um
que compreenda
ou ao menos tente
enxergar no total
uma única gente

quarta-feira, 9 de março de 2016

virus

no one here wants to fight me like you do



Caetano há algumas décadas
já previa meu modus operandi:
um anticomputador sentimental

já citado em outro texto
uma interface meticulosamente criada
pra conexão com outros indivíduos
para uma melhor comunicação
o mais confortável possível
sem perder a sua veracidade e franqueza
uma criptografia deveras avançada
feita de coração para coração

há um fato que os outros não sabem
(e sim, eu sei que existem "outros"
não são todos como nós)
a gente se reconhece no olho
na cor da alma, no cheiro
eu te reconheci pelo seu cabelo
e sei por isso que você é ainda mais especial

como em "Colossus"
duas nações mundiais habitam em nós
URSS e USA
uma guerra fria com objetivos nada bélicos
belos objetivos eu diria
como você

há quantas ando nessa disputa?
até quando você me testará na sua luta?
espadachim especialista
golpe de olho, D'Artagnan
sei de olhos fechados
que por aí
só você me derrotaria numa manhã

segunda-feira, 7 de março de 2016

virtual





eu queria abandonar a vida real
pra viver uma vida marginal
por uns tempos
num ambiente computacional
sem regras muito bem definidas
sem ter que abandonar a vida virtual
a qual estou submetido

sem as amarras que o tempo/espaço me dão
me fazem escolher entre a cabeça, o bolso e o coração
ou talvez eu tenha uma carga maior nos três sentidos

eu vejo como as pessoas aplaudem
os bons exemplos
pessoas simples e comprometidas
com um único ideal ao qual se dispuseram
um ideal que as satisfaz completamente
um norte e identidade para toda uma vida

mas infelizmente eu não consigo ser assim
eu sei os custos que envolvem
mas dentro de mim existe algo
que me diz todos os dias
para continuar nesse propósito louco
em ver o mundo à minha maneira
e que algum dia mais cedo ou mais tarde
eu receberei uma carta notificando os ganhos até então

como uma métrica no trabalho
de grão em grão
vivendo numa topologia estrela
me expandindo para todos os espaços

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

caretas




eu aprendi a ser mais duro
a pensar menos no que há na mente alheia
nas coisas alheias àquilo que quero
nas coisas alheias a tudo que é bom pra mim

aprendi que a gente pode ser quem quer
que nós podemos sim enfiar goela abaixo
dos caretas, nossas ideias, nossos desejos
                            [ como uma super pílula
e muito embora saibamos que eles farão careta ao engolir
estamos nem aí

tudo graças a essa mania de me jogar no desconhecido
de não ter medo do barulho que há na bomba, do estampido
de não ter medo de desmoronar minhas ideias e reconstruir
com uma nova arquitetura, mais leve, eficiente e menos custosa;
com uma decoração tranquila e bem arejada
para aqueles que aqui se acomodarem
saiam relaxados do lugar

tudo graças à convivência com gente que eu não conheço
com gente que não me conhece bem
mas que vê no meu sorriso um passe livre pra confiança
pra gente rir do que os adultos choram
pra gente voltar a ser criança

são amazonas e alguns cavaleiros
que sabem das amazonas a sua importância
que respeitam a sua presença e autoridade
de viver da vida toda a infância

e desfazer os tratos sociais que nos prendem ao dia-a-dia
que nos doutrinam, adestram, e fazem-nos crer que o normal
é a monotonia;
é com essas pessoas que gasto meus dias
porque com as outras
já não gasto mais

poderia eu ser um paladino da caridade
com a minha convivência educar o próximo
libertá-los de todos esses vícios sociais
mas me falta a paciência
essa infelizmente já não tenho
“devagarzinho flor em flor”

beija-flores mil à minha volta
lagartas egoístas e sedentas de pólen
se revoltam
não há mais tantas flores virgens ao redor;
elas não aceitam a mutação
elas cheiram pó
imundo
e vem me dizer que o errado sou eu
que vivo por aí
polinizando o mundo

brenda




quando você apareceu a primeira vez
no mesmo local em que estaríamos um ano após
eu te enxerguei de relance, canto de olho
era um dejavù
não era quem eu conheceria

vejo as coisas sem a superficialidade natural do cotidiano
um pescador penetrando o rio com o anzol da realidade
e lá ao fundo, próximo a alguns seres que eu já havia conhecido
eu ouvi falar do seu canto e do seu brilho;
desde a sua confirmação, eu venho dando mais atenção
a essas visões
-
sorriso branco, olho à meia altura
braços jogados num andar de passos curtos
que fazem aquela avenida cada vez mais sua
uma presença imponente diante dos demais
ainda que especialmente branda

é quase impossível estar de bobeira
e não gastar alguns segundos mirando seu rosto
blasé, Audrey Hepburn
Frida
misteriosa Cleópatra
fazendo a egípcia

a despreocupação com o ambiente que circunda
é quase desprezo, não fosse a doçura
dá a ideia que o mundo está à sua disposição
e eu não duvido disso;
você é filha da gentileza
e eu percebi sua realeza
no exato momento em que você entrou no mar

a visão de ti, alva tez
disputando com a lua a nudez
cortando as ondas sem quebrar
mergulhando como se fosse tudo seu
eu, a me preocupar, em vão:
aquele lugar parecia ser o seu coração

com a sinceridade inevitável de quem lhe dirige o olho:

naquele momento aquilo era a coisa mais bonita que já vi.
queria eu ser Monet ou Van Gogh
pra chapar na tela momento tão sutil
o nome desse quadro seria “Yemanjá”
pintado apenas em branco e anil

anne




tattoo, rock n' roll
baby led zeppelin
seu nome é faixa 1 de qualquer disco
a musa perfeita pra uma canção

olho cru, pesado, sorriso leve
rara dicotomia que não se percebe
a um primeiro olhar;
parece que vive de lua, a passear nos telhados
eu piso com cuidado pra não incomodar
ouço sua voz, solfejo um ou dois miados

taurina na sua mais espontânea face
kabuki, disfarce
eu não sei o que você é;
de dia lhe vejo sereia
à noite você tá de pé
                                 [ tão lindo sujo de areia
como se comandasse a maré

seu corpo avisa perigo
você me quebrou um dente
porque lhe abracei de costas
eu perderia minhas fichas em apostas
pra saber o que mais de mim levaria;
ao fim estaria feliz,
em total avaria

faltavam cinco noites para o ano acabar
quando você me ensinou como sentir o mar
as ondas levaram muito de mim
e a partir dali eu vi o mundo de outra forma:
a partir dali eu vi em ti o mundo
e desde então eu enxergo no mundo suas formas

kaos





era um evento importante
eu me libertara há pouco de uma peça
a atriz principal estava lá
lhe observando atentamente
enquanto você pairava distante
com um cigarro irônico
me contando as impressões da plateia
e suas últimas missões

o olhar fotográfico, a visão jornalística
fazem de você a manchete invisível
capa de jornal de uma tiragem só
única, exclusiva
demasiadamente rica
para a multidão comum

fazia tempo que não a via
de ti, eventualmente perguntava
à dona dos papos de Ibicaraí.
sabe, aquela história do destino que falo
e maktub, você esteve sempre ali.
no caderno 1 do ano que vem
uma enviada espacial do futuro

grandiosa, seu espírito reluz
age como Andrômeda balançando seu vestido
em sua dança cigana a seduzir a Via Láctea;
compasso romântico, terno e relaxado
para apaziguar no seu amor toda abordagem prática
você tem o terceiro olho, monamour
o mesmo olho caótico que habita o centro de cada galáxia
o buraco negro que suga cada trecho de luz para si
a força maior que as estrelas buscam
e orbitam naturalmente, sem esforço
graças à lei de gravitação universal
                          [  ou porque simplesmente pagam pau

você é o ying-yang em degradê
a última tendência demodê
meu amor de irmão à moda antiga
o beijo secreto da amiga
que rola sem muito porquê

nas manhãs que acordo insoso
seu bom dia tem sido o instantâneo remédio
o analgésico da rotina
a dipirona contra o tédio;

as madrugadas tem sido ensolaradas
mas a filosofia é o nosso boné;
a sua insustentável leveza de ser
será uma lenda contada
ficará pra sempre marcada
nas ruas de Itacaré