quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

caretas




eu aprendi a ser mais duro
a pensar menos no que há na mente alheia
nas coisas alheias àquilo que quero
nas coisas alheias a tudo que é bom pra mim

aprendi que a gente pode ser quem quer
que nós podemos sim enfiar goela abaixo
dos caretas, nossas ideias, nossos desejos
                            [ como uma super pílula
e muito embora saibamos que eles farão careta ao engolir
estamos nem aí

tudo graças a essa mania de me jogar no desconhecido
de não ter medo do barulho que há na bomba, do estampido
de não ter medo de desmoronar minhas ideias e reconstruir
com uma nova arquitetura, mais leve, eficiente e menos custosa;
com uma decoração tranquila e bem arejada
para aqueles que aqui se acomodarem
saiam relaxados do lugar

tudo graças à convivência com gente que eu não conheço
com gente que não me conhece bem
mas que vê no meu sorriso um passe livre pra confiança
pra gente rir do que os adultos choram
pra gente voltar a ser criança

são amazonas e alguns cavaleiros
que sabem das amazonas a sua importância
que respeitam a sua presença e autoridade
de viver da vida toda a infância

e desfazer os tratos sociais que nos prendem ao dia-a-dia
que nos doutrinam, adestram, e fazem-nos crer que o normal
é a monotonia;
é com essas pessoas que gasto meus dias
porque com as outras
já não gasto mais

poderia eu ser um paladino da caridade
com a minha convivência educar o próximo
libertá-los de todos esses vícios sociais
mas me falta a paciência
essa infelizmente já não tenho
“devagarzinho flor em flor”

beija-flores mil à minha volta
lagartas egoístas e sedentas de pólen
se revoltam
não há mais tantas flores virgens ao redor;
elas não aceitam a mutação
elas cheiram pó
imundo
e vem me dizer que o errado sou eu
que vivo por aí
polinizando o mundo

brenda




quando você apareceu a primeira vez
no mesmo local em que estaríamos um ano após
eu te enxerguei de relance, canto de olho
era um dejavù
não era quem eu conheceria

vejo as coisas sem a superficialidade natural do cotidiano
um pescador penetrando o rio com o anzol da realidade
e lá ao fundo, próximo a alguns seres que eu já havia conhecido
eu ouvi falar do seu canto e do seu brilho;
desde a sua confirmação, eu venho dando mais atenção
a essas visões
-
sorriso branco, olho à meia altura
braços jogados num andar de passos curtos
que fazem aquela avenida cada vez mais sua
uma presença imponente diante dos demais
ainda que especialmente branda

é quase impossível estar de bobeira
e não gastar alguns segundos mirando seu rosto
blasé, Audrey Hepburn
Frida
misteriosa Cleópatra
fazendo a egípcia

a despreocupação com o ambiente que circunda
é quase desprezo, não fosse a doçura
dá a ideia que o mundo está à sua disposição
e eu não duvido disso;
você é filha da gentileza
e eu percebi sua realeza
no exato momento em que você entrou no mar

a visão de ti, alva tez
disputando com a lua a nudez
cortando as ondas sem quebrar
mergulhando como se fosse tudo seu
eu, a me preocupar, em vão:
aquele lugar parecia ser o seu coração

com a sinceridade inevitável de quem lhe dirige o olho:

naquele momento aquilo era a coisa mais bonita que já vi.
queria eu ser Monet ou Van Gogh
pra chapar na tela momento tão sutil
o nome desse quadro seria “Yemanjá”
pintado apenas em branco e anil

anne




tattoo, rock n' roll
baby led zeppelin
seu nome é faixa 1 de qualquer disco
a musa perfeita pra uma canção

olho cru, pesado, sorriso leve
rara dicotomia que não se percebe
a um primeiro olhar;
parece que vive de lua, a passear nos telhados
eu piso com cuidado pra não incomodar
ouço sua voz, solfejo um ou dois miados

taurina na sua mais espontânea face
kabuki, disfarce
eu não sei o que você é;
de dia lhe vejo sereia
à noite você tá de pé
                                 [ tão lindo sujo de areia
como se comandasse a maré

seu corpo avisa perigo
você me quebrou um dente
porque lhe abracei de costas
eu perderia minhas fichas em apostas
pra saber o que mais de mim levaria;
ao fim estaria feliz,
em total avaria

faltavam cinco noites para o ano acabar
quando você me ensinou como sentir o mar
as ondas levaram muito de mim
e a partir dali eu vi o mundo de outra forma:
a partir dali eu vi em ti o mundo
e desde então eu enxergo no mundo suas formas

kaos





era um evento importante
eu me libertara há pouco de uma peça
a atriz principal estava lá
lhe observando atentamente
enquanto você pairava distante
com um cigarro irônico
me contando as impressões da plateia
e suas últimas missões

o olhar fotográfico, a visão jornalística
fazem de você a manchete invisível
capa de jornal de uma tiragem só
única, exclusiva
demasiadamente rica
para a multidão comum

fazia tempo que não a via
de ti, eventualmente perguntava
à dona dos papos de Ibicaraí.
sabe, aquela história do destino que falo
e maktub, você esteve sempre ali.
no caderno 1 do ano que vem
uma enviada espacial do futuro

grandiosa, seu espírito reluz
age como Andrômeda balançando seu vestido
em sua dança cigana a seduzir a Via Láctea;
compasso romântico, terno e relaxado
para apaziguar no seu amor toda abordagem prática
você tem o terceiro olho, monamour
o mesmo olho caótico que habita o centro de cada galáxia
o buraco negro que suga cada trecho de luz para si
a força maior que as estrelas buscam
e orbitam naturalmente, sem esforço
graças à lei de gravitação universal
                          [  ou porque simplesmente pagam pau

você é o ying-yang em degradê
a última tendência demodê
meu amor de irmão à moda antiga
o beijo secreto da amiga
que rola sem muito porquê

nas manhãs que acordo insoso
seu bom dia tem sido o instantâneo remédio
o analgésico da rotina
a dipirona contra o tédio;

as madrugadas tem sido ensolaradas
mas a filosofia é o nosso boné;
a sua insustentável leveza de ser
será uma lenda contada
ficará pra sempre marcada
nas ruas de Itacaré